24.2.18

Auster carrega-me ao colo para a cama. sabendo da raiva que me trilha os lábios, uma faca invisível nos dentes, fala-me em voz baixa,

Fechamos os olhos por um momento, viramo-nos para olhar para outra coisa qualquer, e, de súbito, aquilo que tínhamos à nossa frente desapareceu. Nada dura, compreendes, nada, nem mesmo os pensamentos dentro da nossa cabeça. E não vale a pena perdermos o nosso tempo à procura seja do que for. Quando uma coisa desaparece, é o seu fim.


/No País das Últimas Coisas, de Paul Auster

23.2.18

posso comparar os últimos dias à piada das mãos frias. de tão frias, gelam e geladas queimam.
Descubra novas ideias com seu gêmeo Pinador

não, Pinterest, esta não é a frase mais adequada para me enviares no assunto do email.

20.2.18

sinto-a, como uma serpente, enrolando-se em mim, deslizando pela espinha, cravando-se nos pulmões, mastigando-me os miolos. os arrepios, as dores, a fraqueza absurda. 

19.2.18

«De cada vez que parava para descansar, se o vento não estivesse a soprar, ouvia um silêncio ensurdecedor.»

/Silêncio na Era do Ruído, Erling Kagge/



Ansel Adams, Trees and Snow, 1933




lembro-me de ser criança, manhã bem cedo, e caminhar por entre as árvores cobertas de neve. ouvia-o, gigante, tomando a floresta por completo, aquele silêncio ensurdecedor

18.2.18

É quando me seco no calor uterino da toalha, que as palavras se afloram: prefiro as insónias de primavera, melhores ainda, as de verão.  Ergo o corpo da cama e desço a ladeira até ao rio, perdendo-me na imensidão do canto dos pássaros e no cheiro das ervas. Mas agora, a noite ainda tão escura, o frio gretando as mãos, abrindo-me fendas nos lábios, para onde caminhar? 

17.2.18

espanta-se o Damas, quando lhe peço que saia de cima de mim, arrastando o corpo à beira da cama, levantando-me para ir trabalhar. mas está a chover, Alicinha! hoje não podes ir lavar janelas. rio-me, ainda não lhe contei que para além da lavagem personalizada de janelas, algo que desconhecia gostar, agora, para compor o mês, que a corda me aperta, também aplico betume em brechas, fendas, rachas e aberturas indesejáveis. preparo a minha própria mistura com óleo de linhaça e prometo um serviço de elevada categoria. começo a ser famosa nas redondezas pela lisura da superfície final. mas nada disto interessa a Damas, que prefere fingir-me ainda como a magricela que lê livros de companhia. se já nem eu sei quem sou, em quem me ando a transformar, adaptando a mão à vida, como poderia ele, o meu Damas farto, de carne em fogo e falo em riste, perceber que tudo mudou?

14.2.18















peço-lhe uma única coisa, antes de sair, rosas vermelhas não, por favor!, arregala-me os olhos de espanto, que vejo reflectidos no dourado do elevador. a felicidade está sobrestimada. nós cá preferimos vender memórias de melancolia, aquelas que nunca se esquecem. ranúnculos violeta, o que me diz?
perfeito.
hoje quero um beijo com língua e um verso desenhado na pele.
amanhã também.

12.2.18

um dia de trabalho como outro qualquer, percebi-o logo que cheguei ao pequeno parque improvisado no baldio. encolho jolly jumper num buraco afastado e corro para o interior do salon. d. paula, maternal e amorosa como sempre, apressa-se a sentar-me na sua sala. o costume, ex-turistas, trabalhadores dos óleos e dos escapes, ceo cinzentos, rapaziada dos escritórios em volta, há de tudo. e eis que os vejo, enquanto beberico o meu copo de tinto, os caçadores de espaços autênticos em vias de extinção... malditos sejam, não bastavam os jornalistas e os actores de comédia, agora esta raça. daqui a algum tempo, dois ou três artigos romantizados nisso das revistas da moda, e terei de concorrer ao espaço - já - exíguo, mesa a mesa, com as massas urbanchic dos bairros centrais. raios os partam!

11.2.18

Orphée traces a path from darkness into light, inspired by the Orpheus myth. A story about death and rebirth, the elusive nature of creation and art and the ephemeral nature of memory. It's an album about change, love and art – a reflection of our relationships,


encontrado no encontrador de belezas

10.2.18




































Violeta, um clitóris florindo a boca de Whitman.


Sex contains all, bodies, souls, 
Meanings, proofs, purities, delicacies, results, promulgations,
Songs, commands, health, pride, the maternal mystery, the
   seminal milk,
All hopes, benefactions, bestowals, all the passions, loves,
   beauties, delights of the earth,
All the governments, judges, gods, follow’d persons of the
   earth,
These are contain’d in sex as parts of itself and justifications
   of itself.
já cá faltava a peça, repetindo-se tanto quanto eu com aquilo das aliterações, assonâncias também. que lhe importa a forma como escrevo, dando-se ao trabalho de digitar a reclamação, chamada de atenção, prefere chamar-lhe, esse pavão da língua portuguesa. que lhe interessa se me repito, se facilito com rimas fáceis, dessas da música pop - quase o entendo, lembrando os ais do joão pedro pais - se este é o meu espaço e tão-pouco permito nele a comunicação. mas por que diabos esta estranha criatura não se dedica a leituras mais cuidadas. sugiro as sete centúrias de curas medicinais, de Amato Lusitano, se o encontrar.
voltará amanhã para terminar a poda das árvores de fruto. só depois trará o cunhado e juntos hão-de juntar as pernadas tombadas pelo terreno, logo se verá quando se lhes pega o fogo. o sotaque a samba e bossa nova não engana, mas Ayrton diz que não é de carnavais, a poda não se pode adiar mais, os pessegueiros já estão em flor. a ver vamos, enquanto conto as notas para lhe pagar.
creio que nunca lhe mostrei um sorriso que fosse, irrita-me a pose o suficiente para fechar a cara até que se afaste, montando ora um, ora outro cavalo. da última vez, tendo alterado o percurso costumeiro junto ao rio, exibiu-se pelo caminho principal, terreno com dono em terras de frança. as cadelas, sentido o intruso, correram à rede e ladraram - olhou-as com o desdém de quem manda. fitei-o com ódio, recordo, não desviou o olhar. tivesse a espingarda do meu pai e passaria sempre debaixo de mira. imprestável traste, julgando-se por condição. 
disse-me uma vez a dona da bata às riscas, enquanto fingia limpar o pó, que o senhor engenheiro era dono por herança da colina acolá e das vacas que lá pastavam, das vinhas ao fundo e do casario junto ao chafariz. o irmão, continuou ela, é um gastador de primeira, só quer é putas e vinho verde, desculpe a expressão, menina, e então este comprou-lhe a parte dos herdos e gere tudo sozinho. não julguei na altura que tal criatura, caricatura de vilarejo do interior, viesse a ser uma das minhas das minhas /poucas/ irritações locais. 

8.2.18

a voz rouca que sai das pequena colunas de Jolly Jumper educa-me a ignorância clássica musical, afinal era Tchaikovsky o autor de tamanho orgasmo, as mãos dedilhando à exaustão as cordas de nervos equestres, eu carregando no acelerador, embalada pelo movimento frenético, as pontas dos dedos sangrando, a um instante do êxtase anunciado. no poste, junto ao portão, uma surpresa, mokambo, o mocho-galego, à minha espera. sorrio. quantos poderão gabar-se de tão exótica recepção.
a casa, escura, recebe-me sem surpresas. onde o deixei, al berto espera por mim. despi-me e entrámos juntos nas águas quentes de fevereiro. 

7.2.18

a avenida da liberdade a passo de caracol, num entardecer colorido pelo amarelo aceso das lojas e o vermelho atiçado dos semáforos. e então vi-as! num chilreio desenfreado, bailavam, eléctricas, na contraluz do fim do dia. duvidei da descoberta e desci a janela. impossível não as reconhecer. mas como?, pensei, estamos em fevereiro e nos céus de lisboa já voam as andorinhas?!

6.2.18

só al berto quebra o silêncio desta casa escura e fria.

conheci um homem que possuía uma cabeça de vidro.
víamos - pelo lado menos sombrio do pensamento - todo o sistema planetário.
víamos o tremelicar da luz nas veias e o lodo das emoções na ponta dos dedos. o latejar do tempo na humidade dos lábios.
e a insónia, com seus anéis de luas quebradas e espermas ressequidos. as estrelas mortas das cidades imaginadas.
os ossos tristes das palavras.
agora estou na beira do penhasco e não vou voar


 Iconography From The Album The Blue Notebooks



notas azuis, soltas, prendendo-me ao fundo do mar onde constelações de cavalos-marinhos e estrelas de mil cores explodem dentro de mim, na minha mente, na minha alma, líquida, no meu ser, e eu gritando como quem nasce, gritando como quem morre, o frio nos meus olhos, a mão procurando o pai, o irmão, a queda vertiginosa, o fim ali ao fundo, o estrondo, combate final, os ossos quebrando, rasgando a carne, válvulas, veias, vértices, tendões, os fios de sangue, sulcos, e então o medo dando lugar à paz da imutabilidade, e as sereias em côro depois, cântico, oráculo, tristeza, saudade, certeza de que a vida é curta como o riscar de um fósforo, a lâmina cravando-se na raiz da existência, crua, em milhões de voltas, flutuando nas ondas do corpo materno. mar, mãe, cama, ventre, vida, vento, solidão. correndo pelas ruas desertas da madrugada, numa cidade do norte do mundo, ninguém me vê, ninguém saberá de mim, as minhas mãos fervem. ácido. sou invisível porque me fiz poeira no voo de um beija-flor. nada agora, apenas o silêncio do azul no espelho da parede.

30.1.18

o óbvio aconteceu,
o que eu andava a tentar matar
morreu.

28.1.18

Hari & Deepti 




a gruta

a gruta onde decidi esconder-me do mundo não passava à primeira vista de um buraco de raposas escavado no meio das silvas. pequena, forrada pela penugem de várias famílias vulpeanas, era a toca perfeita para me ausentar por tempo indefinido da realidade estúpida do mundo. nenhum som motor, nenhuma voz humana, alimentava-me de livros e de laranjas, e de algumas sementes. os dias passaram, tal e qual um guandira, o coração abrandou os seus pequenos tambores e a escuridão tomou conta de mim. o pensamento, livre do ruído das coisas visíveis, fluía sem rumo, tomando formas difusas, medonhas às vezes. em vez de o sovar como era o meu jeito, trazia-o mansamente pela mão de volta ao leito do rio e recomeçava outra vez. o exercício da alma é aprender a ficar sozinha. assim foi até que um grito agudo me acordou a meio de uma noite qualquer. o medo paralisou-me o tempo preciso de escutar um segundo grito, mais fino e distinto. que criatura podia gritar assim, cravando-se com garras umbráticas nos meus ouvidos adormecidos? 
procurei no bolso do casaco as folhas secas de erva-cidreira e mastiguei algumas para me acalmar. os gritos, uma mistura de uivo lupino e animal marinho alienígena, continuaram por mais alguns minutos. vinham de dentro da terra, como podia ser? as pernas tolhidas pela letargia fraquejavam às tentativas de movimento, quando consegui levantar-me as carriças já cantavam lá fora. não saí, não queria cegar-me na luz branca de janeiro, procurei o coração das trevas e mordi-lhe mais um pouco da capa. estamos acostumados a contemplar a forma agrilhoada de um monstro vencido, mas ali – ali podíamos ver a monstruosidade à solta.

11.1.18

em hibernação.



9.1.18

Chove. No telemóvel, a mensagem é clara, trânsito lento.  Mergulho nas águas demasiado quentes, continuo gelada. Quero hibernar. Sou um animal acossado, encurralado entre o caçador e a queda.

6.1.18

Sonho nº 5




José Buchmann sorria. Um leve sorriso de troça. Estávamos no vagão luxuoso de um velho comboio a vapor. Uma tela, pendurada numa das paredes, iluminava o ar com uma vaga luz cor de cobre. Reparei num tabuleiro de xadrez, em pau-preto e marfim, colocado numa pequena mesa, entre mim e ele. Não me recordava de ter movido as peças mas o jogo ia adiantado. O fotógrafo estava em clara vantagem.

  --Finalmente -- disse. -- Há vários dias que sonhava com isto. Queria vê-lo. Queria saber como era você.
  -- Acha, então, que esta conversa é real?
  -- A conversa, certamente, as circunstâncias é que carecem de substância. Há verdade, ainda que não haja verosimilhança, em tudo o que um homem sonha. Uma goiabeira em flor, por exemplo, perdida algures entre as páginas de um bom romance, pode alegrar com o seu perfume fictício vários salões concretos.

  Fui forçado a concordar. Às vezes, por exemplo, sonho que voo. Ora, nunca voei com tanta verdade, inclusive com tanta autoridade, quanto nos meus sonhos. Voar de avião, na época em que eu voava de avião, não me transmitia um idêntico sentimento de liberdade. Tenho chorado a morte da minha avó, em sonhos, mais e melhor do que a chorei desperto. Chorei, aliás, lágrimas mais autênticas pela morte de algumas personagens literárias do que pelo desaparecimento de muitos amigos e parentes. O que me parecia menos real ali era a tela na parede, atrás de José Buchmann, uma composição melancólica, não pelo tema, pois não era possível adivinhar qual fosse o tema, o que talvez seja a maior virtude da arte moderna, e sim pelo lume das cores.
A tarde entrava (rápida) pelas janelas. Víamos correr as praias, os coqueiros carregados de cocos, a larga cabeleira despenteada das casuarinas. Víamos ainda o mar, muito ao fundo, a arder num imenso incêndio azul-anil. O comboio abrandou numa subida. Arfava, asmático, velho monstro mecânico, quase sem fôlego. José Buchmann avançou a rainha, ameaçando-me o cavalo do rei. Ofereci-lhe um peão.

  Ele olhou-o distraído:
  -- A verdade é improvável. -- Sorriu num relâmpago. -- A mentira -- explicou -- está por toda a parte. A própria Natureza mente. O que é a camuflagem, por exemplo, senão uma mentira? O camaleão disfarça-se de folha para iludir a pobre borboleta. Mente-lhe, dizendo «Fica tranquila, minha querida, não vês que sou apenas uma folha muito verde ondulando ao vento?», e depois atira-lhe a língua, a uma velocidade de seiscentos e vinte e cinco centímetros por segundo, e come-a.

  Comeu o peão. Fiquei em silêncio, atordoado pela revelação e pelo distante fulgor do mar. Só me lembrei de uma frase alheia:
  -- «Abomino a mentira porque é uma inexatidão.»
  José Buchmann reconheceu as palavras. Considerou-as por um instante, medindo-lhes a solidez e a mecânica; a eficácia:
  -- Também a verdade costuma ser ambígua. Se fosse exata não seria humana. -- Ganhava animação à medida que falava: -- Você citou Ricardo Reis. Dê-me licença para citar Montaigne: «Nada parece verdadeiro que não possa parecer falso.»

(...)

/O Vendedor de Passados/

5.1.18

Amigos comuns, disse, e a voz
fez-se ainda mais suave,
tinham-lhe indicado aquele
endereço. Haviam-lhe falado num
homem que traficava memórias,
que vendia o passado,
secretamente, como outros
contrabandeiam cocaína. Félix
olhou-o desconfiado. Tudo no
estranho o irritava – os modos
doces e ao mesmo tempo
autoritários, o discurso irónico,
o bigode arcaico.

/O Vendedor de Passados/

3.1.18

2017 foi o ano em que uma belíssima coruja das torres veio morrer na varanda do meu quarto...

em 2018, será a ave do ano, aqui ao lado, em espanha.

2.1.18

será uma bebedeira de poesia, debaixo do édredon, escreve o Damas, pedindo-me que não me esqueça da garrafa de moscatel que está no frigorífico.
no primeiro dia do ano novo, almocei com a mãe e com a madrinha. entre abraços, beijos e muitas gargalhadas, fui menina outra vez. antes de partir, comemos tangerinas à chuva - finíssima - e meu coração transbordava de felicidade. das complicações do dia - iguais para tantos outros em viagem - já nem me lembro. as duas mulheres da minha vida estão felizes e eu estou feliz por elas.
na segunda noite do novo ano, depois de uma longa insónia, sonhei com a guerra nuclear e o fim do mundo. a explosão gigante a cegar-me os olhos, lá ao fundo, no horizonte, eu a fugir com as cadelas, entre centenas de pessoas, por um carreiro íngreme, em precipício, nas montanhas. o medo de deixar cair os animais e a pressa de chegar a algum lugar seguro - não sei para onde caminhava - misturavam-se no meu sonho. antes de acordar, lembro apenas a onda de luz que nos cobriu a todos.
acordei sem grande alívio, taciturna, lendo no sonho uma visão - pensamento que me atormenta há dias -, se a matemática da morte se mantiver na minha vida, este será o ano em que perderei alguém muito próximo.

31.12.17

2018

que, de olhos fechados, encontre sempre o que procuro.
2017

foi o ano em que matei Vendredi, uma rapariga feia de bom coração, frustrada, refém, como milhares, a um sistema podre, em constantes remoinhos de esterco. a morte de Vendredi, um tiro no escuro profundo, um salto longo fora da caixa onde se deixou empacotar por amor à arte, foi - e será sempre - um dos acontecimentos maiores da minha vida. não se mata alguém sem sentir a lâmina da navalha cravada ao que foi e ao que podia ter sido, mas principalmente ao que será. carrego um cadáver ainda, que não sei esconder.

foi também o ano em que perdi Sr. Gato, o Velho, que tentei manter vivo até à exaustão das suas forças - e como era forte o meu Gato. foi ele que pediu para o deixar partir, recusando toda a boa vontade, e eu chorei e cedi. depois, arrastei-me até onde repousa Malaquias, o grande cão preto, e cavei, debaixo de chuva, a pequena cova onde entreguei o seu corpo à terra. tombei então como uma criança e solucei em total abandono.

com a morte de Vendredi e do Sr. Gato, foi-se também uma boa parte de mim. não deixei de saber andar, mas piso ainda as ervas altas e os arbustos, de onde terei de fazer novos caminhos. estranhamente, ou não, é do Sr. Gato que mais me lembro, confesso que às vezes ainda o ouço miar. jamais voltei ao local onde conheci Vendredi. 
And this I dreamt, and this I dream,
And some time this I will dream again,
And all will be repeated, all be re-embodied,
You will dream everything I have seen in dream.

To one side from ourselves, to one side from the world
Wave follows wave to break on the shore,
On each wave is a star, a person, a bird,
Dreams, reality, death—on wave after wave.

No need for a date: I was, I am, and I will be,
Life is a wonder of wonders, and to wonder
I dedicate myself, on my knees, like an orphan,
Alone—among mirrors—fenced in by reflections:
Cities and seas, iridescent, intensified.
A mother in tears takes a child on her lap.




Because we don't know when we will die, we get to think of life as an unexhaustable well yet everything happens on a certain number of time, and a very small number, really. 

How many more times will you remember a certain afternoon of your childhood, some afternoon that's so deeply part of your being that you can't ever consider your life without it, perhaps four or five time more, perhaps not even that ? 

How many more times will you watch the full moon rises ? 

Perhaps twenty, and yet it all seems limitless.

Paul Bowles, The Sheltering Sky


29.12.17

Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.


É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Karla Gerard

das páginas mais belas que li em 2017: aracne, de antónio franco alexandre [paixão minha]

a pedido de Milu, a aranha, aqui partilho o final de uma bela aventura em poesia.


Já dei a volta ao mundo, transportado
às vezes pelo vento, outras no dorso
de vigorosas aves migratórias;
atravessei desertos, vi as praias
que a vaga névoa humana delimita;
flutuando à deriva no mar alto,
fui visitar as mais secretas ilhas.

Como um herói antigo, bem podia
debruçar-me na teia do destino
e dar-lhe a consistência das histórias;
ocorrem-me aventuras, episódios,
naufrágios casuais, duros exílios,
que na arte do verso são figuras
de alguma obscura ausência primitiva.

Suspenso de uma trave, protegido
pelas paredes mestras desta casa
erguida, como um barco, sobre abismos,
com pouco esforço poderia ter
no papel branco um novo corpo de asas,
e descansar enfim, todo coberto
por um suave manto de memórias.

Mas se vou transformar-me, não aspiro
à condição de marco funerário
ou ténue monumento de mim mesmo;
nem tenho grande pressa de lembrar
a morte mal parada deste inverno,
ratos armados espalhando a peste,
outros deixados nos carris da sorte.

Bem sei que o corpo humano é frágil, imaturo,
um tanto mole, e pouco colorido;
não tem o corte puro do besouro,
nem o jeito frugal do escaravelho;
mal chega a florescer, logo envelhece,
e o pouco que constrói cedo parece,
transfigurado em sombra, não ter sido.

Assim serei também; por mais que digam
que nesta mutação me desperdiço
e arrisco até uma burlesca queda,
eu teimo em ser humano por um dia
para que possas ver-me tal qual sou:
um grão, de fina areia, que se move
no dourado rumor da tua pele,
o breve estremecer que te percorre,
a preguiçosa vida dos sentidos;
e depois, teu igual, talvez te vença
ou me deixe vencer, e te pertença
com a vaidade que me vem de ter
o sábio coração de um aranhiço.



/Aracne, António Franco Alexandre, Assírio e Alvim/

28.12.17

tenho pelas osgas especial carinho. é verdade, não se espante o leitor se um dia destes lhe repetir, encantada, o salvamento caseiro que em tempos proporcionei a uma família tradicional e numerosa, que habitava, tranquila, um pequeno barracão de madeira abandonado, destinado ao fogo da lareira. muito antes do Sr. Palomar me contar que todas as noites ele e [a senhora Palomar acabam por afastar os cadeirões da televisão, colocando-os ao pé do escaparate; sentados no interior da sala, ficam a contemplar a silhueta esbranquiçada do réptil sobre o fundo escuro. A opção entre a televisão e a osga nem sempre é feita sem incertezas; cada um dos espectáculos fornece informações que o outro não dá: a televisão move-se pelos continentes, recolhendo impulsos luminosos que descrevem a face visível das coisas; a osga, por sua vez, representa a concentração imóvel e os aspectos escondidos, o outro lado daquilo que aparece à vista], já eu me encantava com tão rugoso réptil.
vem esta vasta nota introdutória a propósito disto, onde cheguei por causa de disto.


fica um gostinho de Eulálio, a minha próxima osga:

«Nasci nesta casa e criei-me nela. Nunca saí. Ao entardecer encosto o corpo contra o cristal das janelas e contemplo o céu. Gosto de ver as labaredas altas, as nuvens a galope, e sobre elas os anjos, legiões deles, sacudindo as fagulhas dos cabelos, agitando as largas asas em chamas. É um espectáculo sempre idêntico. Todas as tardes, porém, venho até aqui e divirto-me e comovo-me como se o visse pela primeira vez. A semana passada Félix Ventura chegou mais cedo e surpreendeu-me a rir enquanto lá fora, no azul revolto, uma nuvem enorme corria em círculos, como um cão, tentando apagar o fogo que lhe abrasava a cauda. «Ai, não posso crer! Tu ris?!»
Irritou-me o assombro da criatura. Senti medo mas não movi um músculo. O albino tirou os óculos escuros, guardou-os no bolso interior do casaco, despiu o casaco, lentamente, melancolicamente, e pendurou-o com cuidado nas costas de uma cadeira. Escolheu um disco de vinil e colocou-o no prato do velho gira-discos.»


/O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa/


{osga, lagartixa, lagarto, tanto se me dá, serve igual}
não possuo nem a loucura, nem a pena de Artaud, mas se me pedissem a descrição do estado físico, teria de começar pelo peso absurdo que todos os dias me sinto a carregar, enquanto uma mão invisível me aperta o pescoço, ora leve, ora feroz. sou uma mulher constante, aborrecida: para ser sincera no discurso, e a incerteza quase total do que me aguarda torna-se visível na seborreia que me atormenta os brancos já nascidos, bem como nos múltiplos ataques borbulhosos de que tenho sido vítima. as dores nas costas, confesso que às vezes excruciantes, por conta das muitas horas de pé, outras sentada, são, ainda assim, da repelência menos exposta. dão me apenas um ar rafeiro de uma pobre coitada que se vai aguentando, igual a tantos mais.
concluo então, sem grandes melodramas, que 2017 fez de mim uma mulher mais feia. e está tudo bem.

27.12.17

nunca devia ter permitido a Boris que se deitasse na minha cama. deixei me seduzir pelo rosto sério da sua capa.
Boris aproveitou se da minha tosca figura, deixou me despir o pijama patético e ficou a olhar para mim. quando as onze formigas chegaram e se abocanharam com raiva à minha carne branca, já nada pude fazer. irónico, sem ponta de tesão, ri se do meu rosto apreensivo, da indisposição ao virar de cada página.  este não é o Boris de que me lembro, sedutor, mas nem isso me dá vontade de o largar, caído na cama, antes o aqueço no baixo ventre, enquanto lambo o dedo para o enterrar nas suas folhas.

26.12.17

Los pájaros nacidos en jaula creen que volar es una enfermedad

21.12.17

Esta noche,
el lobo es una sombra que está sola
y que busca a la hembra y siente frío.

...
No basta ser cruel. Eres el último.

[Los conjurados- 1985]


Philip Kanwischer

20.12.17

gritos mudos.
os pés gelados,
o tempo curto,
as mãos vazias.
não é que a idade me tenha trazido respostas, muito pelo contrário, diz-me Bartolomeu, estou em paz, mas porque já não me questiono, percebes? já não procuro por mim fora das coisas. se o que quero é comer esta maçã, pego nela e trinco-a. já não me importa saber de onde me vem a necessidade absurda de comer uma maçã amarela, sempre que as vejo. faço o mesmo com a vida.

18.12.17

e balanços, Damas?
balanços, Alicinha, só os das tuas ancas contra mim.

17.12.17

a madrinha - essa grande parceira no crime de maledicência à remelice do natal e encharcamento alcoólico medicinal - escreve-me em letras garrafais: «HEMORROIDES ma cherie, não há pomada que me valha às varizes no derriere, só me sento de lado. Conheces alguma coisa q ajude?»

vilhamina, madrinha. pomada que desinflama.
não há cu que resista à pera 
Ben's an alien passing by

16.12.17

convencida pela voz opressora da consciência social, enchi-me de coragem e roupa quente e rumei ao pior lugar do mundo num sábado à tarde, a uma semana do natal. a multidão, constituída largamente por famílias completas, inundava o espaço com rapidez e planos traçados desde cedo, já eu, raquítica pessoa que detesta este natal, saltitava entre as clareiras que se iam abrindo na selva comercial, não me livrando por vezes de ser travão humano de carrinhos a abarrotar. nos rostos, (tal como eu), aquela gente, já especialista em buscas e achamentos, trazia apreensão, a maioria um visível descontentamento. chega a ser hilariante perceber a ginástica dos remediados nas compras de natal.

---
não me venha o excelso leitor com os seus iluminados moralismos, que eu, há muito, me incluo na dita classe social.
e tenho até uma quase história de natal,


«O pai de Joana tinha oitenta anos quando morreu. Deram com ele caído sobre o lar, levaram-no em braços para a enxerga. Quatro paredes, duas caixas de castanho, e junto ao catre, junto ao peito, a pedra seca, o granito. Uma mulher desata aos gritos debruçada sobre o catre:
— Vossemecê conhece-me? Vossemecê conhece-me? 
Os olhos não se lhe despegam da arca. Ao fim da vida tem de seu o alvião, a enxada e a manta no fio. A cabeça branca mirrou, a pele é como a crosta que calcamos.

Tem não sei quê de raiz, tem não sei quê de tronco, afora os cabelos brancos que o tornam humano, e o tempo revestiu-o da mesma cor dos montes. Desabituou-se de falar, e pela grandeza e pelo silêncio só o comparo à pedra. Tudo isto foi pedra. Ele e os seus, a poder de anos, moeram-na. Criou-a. Sua vida está ligada à vida da terra. À terra só falta comê-lo.

Terra, terra negra e ingrata, terra de detritos de rocha e mortos, poeira de árvores, suor de pobres, terra que tudo gastas e consomes, há muito que o fizeste teu igual. Nem sei distinguir-vos, mãos como pedras, pele como a tua pele.

A terra come e desgasta. A terra apega-se e encarde. Deforma-o. De revolver a terra criou cascão e um olhar profundo. Só o comparo a Cristo, a um Cristo que tivesse vindo até à velhice, de desilusão em desilusão e de desamparo em desamparo.»


/Húmus, Raul Brandão/
para que mais ninguém me apelide de Grinch, eis a prova de como o espírito natalício - seja lá o que isso for - também se me chegou cá ao pé...



Sexuellement, c'est-à-dire avec mon âme

Boris Vian
eu caminho pelas ruas frias

10.12.17

o vento que faz bailar os canaviais amarelos é o mesmo que baloiça, traquinas, nas orelhas de taeko e yukiko. gosto de ver as nuvens passar, maratona de baleias cinzentas, rumo ao norte. atraso o mais que posso a chegada do carnaval natalício, enquanto me enamoro pelo branco das garças ali perto, que acompanham o veio da terra acabada de rasgar.

ia só buscar umas latinhas para os gatos, quando dei por mim com ela nas mãos.
a culpa? então, a culpa é dos sapatos da Palmier.


dispensaria os brilhantes de boa vontade

8.12.17

tão cinzenta quanto o chão e o céu, quase me esquecia de grafar um pequeno apontamento, que para muitos seria motivo de suicídio social. a passos largos do espaço a limpar, balde e esfregona às costas, deparo-me com uma cara conhecida que me obriga a parar. desempregada, porque isto está tão mau e não andámos a estudar para agora aceitarmos qualquer coisa, pergunta-me se ainda estou na torre de marfim. simplifico o que não me apetece sequer começar, não, agora lavo janelas.
pudesse eu fotografar o espanto enojado daquela cara enfezada, ou descrever o trejeito da boca escancarando-se, o par de olhos de igual maneira, enquanto o nariz se encolhia sozinho. despedi-me da cara ainda em choque sem mais palavras, virando-lhe as costas. começo a perceber as vantagens imediatas de lavar janelas.
não sei se foi esta manhã, enquanto lavava sozinha os vidros daquele abrigo em pleno coração da cidade, lá fora o som da chuva entrecortado pelo rolar dos carros, vozes apressadas nos passeios; se foi já depois do almoço, aqueles grupos que abomino, gentes comendo juntas pela época, alegria contabilizada em beijos e presentes-surpresa. repito: não sei. não sei se foi no ninho forrado a sofás de veludo, camas de um branco libidinoso, bancadas de pedra-mármore onde as ondas ganhariam impulso, espelhos despindo paredes, corpos, uma vida inteira ali; se foi no barulho metálico do almoço, onde a mulher-objecto criticava em guinchos loiros o homem-basófia, ela enjoativamente mimada, ele enjoativamente ostentador, não sei, o que sei - porque o sinto no centro de mim - é que o inverno chegou-me hoje por inteiro, sob o peso frio da chuva.
pudesse eu hibernar.

4.12.17

Algures no céu, ou no raio que o parta, o diabo que o leve, há um pequeno deus, estupidamente cínico, cuja masturbação celestial deve ser, nada mais, nada menos do que trocar me as voltas à vida. Uma semana tão cheia de nadas e obrigações e o corpo clamando por tudo, de livre vontade. 
acordei em Niflheim com a temperatura abaixo de zero, catástrofe natural da madrasta natureza. o frio faz-te bater o coração, rapariga, anda, levanta-te! -- credo, que gente é esta? estes nativos não conhecem o sistema de aquecimento central? -- do pijama polar faço a indumentária de andar por casa, atitude reprovada por todos à mesa do pequeno-almoço [enquanto espero as famosas panquecas da simpática nativa adolescente, dou por mim a comer um prato de sopa... /?!?/...]. daqui a pouco, informa-me o nativo ancião, vamos levar a azeitona. agasalhe-se bem. o quê?! exclamo citadinamente. está-se bem na cozinha, com o fogão a lenha a todo o vapor e o cheiro dos marmelos assados. vamos só ao lagar, é perto, tranquiliza-me o mesmo ancião, de quem gosto particularmente. mas vamos a pé?!!, temo pela minha vida. ri-se e acena-me que não. ólhamesta angélica, parece que nem nasceu cá!, goza o nativo com olhos iguais aos meus. congela-se-me o discernimento. nasci?! duvido.

nevou?...
não, rapariga! é geada!
...meu deus!

1.12.17

ao abrigo do artigo primeiro da próxima convenção dos desacorçoados, que se há-de realizar logo que a data seja marcada e combinado o espaço, vistoso, onde caibam a pompa e a circunstância, o mestre de cerimónias, o tocador espanhol e o cobrador do fraque, declaro-me humildemente seca de palavras para semear nesta terra.

26.11.17

"julgo-me oculta no lugar mais obscuro e escondido desta cozinha, e gozo o esplendor da luz do fogão que é o espelho humano de uma estrela: -- que posso eu dizer-vos que não quebre a incomunicabilidade das palavras de amor?"


/Um Beijo dado mais tarde, de Maria Gabriela Llansol/
Há noites em que ainda acordo com o som da madeira do armário a crepitar, a roupa em labaredas, os livros da biblioteca. Estou dentro de um mar de chamas, enfeitiçada, o fogo circundando-me, e não consigo gritar. 

25.11.17

Quando finalmente deixou o corpo afundar-se na água quente, os braços já não lhe doíam do peso da terra cavada à força.

18.11.17

como nos homens,
encontra-se às vezes nos gatos velhos
uma infância luminosa, 
guardada no brilho
do olhar
e no recolher de cada garra.
a vida não é só isso, Alicinha. ouve o que te digo. as baleias cantam no fundo dos mares, há peixes que voam e aves que mergulham, há um mar vivo que está morto e há mortos que vivem em nós, há a aurora boreal e o arco-íris, os fiordes, os corais e as grutas, os beija-flores e as tartarugas. há as papoilas e as rosas mosqueta. e há o sexo, Alicinha, corpos que se entregam, enquanto recebem, almas que se desejam, o universo em suspensão. não vês tu tudo isso? estarás cega? estarás viva?
Petra decidiu outra vez que perguntar a cada um de nós qual o presente que deseja para o natal é a melhor forma de nos fazer felizes. todos, menos Petra, odiamos o natal e ouvir falar dele ainda em novembro deixa-nos irritados e carrancudos. mas Petra é a nossa mãe adoptiva e nós somos o seu filho morto. ninguém nega uma palavra a Petra. fechamos os olhos por um momento e iniciamos o rol: algodão-doce! o perfume da avó! o rádio do avô! maçãs caramelizadas! chuva! sim, chuva! um escape para a mota! um corta unhas! não, antes uma motoserra! papel prensado com urzes e rosmaninho! ou então umas luvas de lã de alpaca. ou um poema abstracto. cerveja! mel! pão! hibisco! uma máquina voadora! tomate holandês! um papagaio! uma cabeça nova! uma vida nova! esquecer! recomeçar.

16.11.17

Lucky Blue, moi-même, estacionou Jolly Jumper no parque adjacente, afagou o pelo eriçado de Milu, sempre atenta, e prepara-se agora para cavalgar as ondas marinhas deste novembro aquecido.

não trago Deus em mim mas no mundo o procuro

Milu, a intrépida, na orelha de Jolly Jumper.

a aranha do meu destino

15.11.17

eu, Lucky Blue, galgando no meu Jolly, a caminho do nono andar. por esta altura, já Milu, a aranha mais sábia do oeste e do mundo inteiro, deglutia o terceiro morcão com asas.


São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem.

sou uma espécie de Lucky Luke das limpezas de janelas, no meu Jolly Jumper de quatro rodas, levando Milu em vez de Rantanplan. uma cavaleira solitária, erguendo-se com a madrugada.


o passado é um país distante



12.11.17

talvez as minhas mãos sejam de fada, alguma fada desaparecida no tempo, escondida numa gruta de musgo, já muito velha, e que agora me empresta as suas mãos, envoltas em mil movimentos de magia. uma fada cuidadora, que pacifica, acalma e prepara as almas para o destino.
desta vez, pratico também os procedimentos da ciência, desobstruo cateteres, aplico dosagens no soro, meço temperaturas e tudo o mais que for surgindo. mãos de fada, confirma-me o cuidador dos corpos, e eu, de corpo e alma, agradeço à natureza. 

10.11.17

coragem? coragem é mais do que isso, respondo eu. coragem é andar na montanha-russa, para quem sofre de vertigens, terminar uma relação com alguém que tem uma arma em cima da mesa, ditar o fim da linha dos que amamos. o resto não é coragem, é a vida, empurrada como se pode.


preciso urgentemente de não morrer.

6.11.17


#és um hipócrita, Paddy €€@@@€€
se pudesse - como se num conceito pós-moderno de férias -, ficaria durante uns tempos em Niflheim, observadora atenta e discreta, apreciando a cumplicidade e a ternura daqueles dois. faria com eles os caminhos dourados do outono, ora subindo à serra, ora rumando à vila, bebendo chá, ouvindo a poesia das suas palavras simples e comendo dos seus cachos de uvas.
preciso de aquecer o coração.

5.11.17

regresso a casa, mãos dadas com Gógol, e encontro Velho, o gato, pela primeira vez desde que nos conhecemos, recusando-se a comer, prostrado, urinando-se na cama. neste círculo natural da vida, sei que mais tarde hei-de acreditar de que lhe dei uma boa segunda vida e a melhor velhice que pude, mas por agora, que assisto à decadência do corpo magro do meu querido gato, fico à mercê desta sombra pesada que me nasce por dentro, envolta na mortalha da morte.  

2.11.17

mais do que a mão, que entretanto inchou, o que me me dói é o peito de já não poder mais.

1.11.17


-- e nós, porque é que temos de continuar a trabalhar tantas horas todos os dias?...

-- porque queremos ser livres.
será, espero, a última carta dirigida à Dr.ª Vendredi -- os Senhores Doutores mantêm o formalismo até com os defuntos; não me admiro: ninguém muda, no que à conduta diz respeito. pedem à pobre que se manifeste, desconhecendo do poiso de onde se empoleiram que a pobre morreu sem dar cavaco a ninguém. por respeito à amizade que nos uniu durante tantos anos, repletos de sonhos, planos, enganos e desenganos à paulada, decidi hoje - dia dos mortos - entregar a alma de Vendredi à paz que a pobre merece e responder aos Senhores Doutores:

Caríssimos,
Ilustres Senhores Doutores,
Incapaz de alcançar a vossa magnificência, de entender a vossa sabedoria e, sobretudo, de servir às vossas necessidades e imitar a vossa postura, a Dr.ª Vendredi suicidou-se.

29.10.17

até lá, vou discutindo a agenda da semana difícil que aí vem com o sr. Caraças.


a oliveira da Eurídice

Eurídice tinha uma oliveira com quem podia conversar sobre o que lhe apetecesse - até da vontade exótica de criar uma osga em cativeiro. invejei a ideia (não a da osga, que já tenho práqui osgas às dúzias e não preciso de mais nenhuma, nem que venha treinada) e a oliveira de Eurídice, desde o primeiro momento em que, procurando uma imagem na teia digital, as encontrei. falar sozinha, como eu faço, é coisa dos maluquinhos comuns, já a raposa mo tinha dito, mas as plantas de vaso que me adornam a secretária são flora sensível de estufa, que não conhecendo os rigores do frio de inverno, como conseguiriam acompanhar-me nos mistérios da vida? quanto muito, tagarelar deste ou daquela, que vão surgindo no ecrã. dos livros, falo sempre com quem lá mora e o assunto fica arrumado.
com desejos de imitar Eurídice, em busca da minha oliveira, dei por mim à procura de uma árvore da vida, dessas que sabem das fissuras da alma, dos líquenes foliosos e dos bichos da madeira. já tomada a oliveira por Eurídice, procurei na minha infância a nogueira gigante do avô alberto. magistral, imponente - demasiado grande, concluí, não dá para trazer para o quintal. a tília bonita da minha mãe, o cedro do meu irmão, as minhas framboeseiras, a cerejeira onde caí, mas nada me pareceu ter filosofia linguística suficiente.
Eurídice há muito que se ausentou para local incerto, tendo levado a oliveira consigo, agora nem a oliveira da Eurídice, nem uma árvore só minha. continuo em demanda.

28.10.17

Si, quiero imágenes bellas pero no busco una postal y dentro de todo esto me interesa el paisaje. Además tengo mucha influencia del idealismo alemán buscando la relación que hay entre hombre y entorno. Por esto me gustan los paisajes desolados y silenciosos sin ningún estímulo externo que los contamine. La búsqueda de silencio, ese concepto que describía Kant: la contemplación. Elemento base para llegar al instante pleno, al lugar donde se expande la conciencia. (***)

Carla Fernández Andrade


22.10.17

yukiko é sempre a primeira a levantar-se para regressar, só depois de a ver percorrer alguns metros é que taeko se ergue da cama improvisada nas ervas. conheço-lhes o caminho, tenho cerca de três minutos para acabar este texto, se vierem sempre a direito. três minutos para dizer alguma coisa que valha, antes que yukiko e taeko entrem pela porta de serviço. enquanto procuro as palavras certas, - ou certeiras, dir-me-ia o Damas, se tivesse dormido comigo esta noite, mas faz tempo que não vem -, para limpar a névoa densa que se instalou no meu sorriso. a manhã está fresca, mas cá dentro, com o sol a lamber-me as pernas e o cheiro do café por beber, só a alma se mantém agasalhada. caminham lentamente, as minhas andorinhas gordas, vejo-as daqui e continuo a teclar. marlon brando, atrevido, aproveitou a porta aberta e passeia seguro pela casa inteira. sacana do gato: lá pra fora, marlon brando! podem vir cansadas, mas taeko não resistirá à infrutífera perseguição. marlon brando, na sua passada gingona, vai-se embora apenas porque quer. resta-me pouco tempo, melhor será que comece já a escrever alguma coisa do que quero dizer. não é fácil apalavrar a saudade do corpo que renasce na mão do outro. a distância corrói-nos as certezas, palavras do Damas, ámen. yukiko chegou, feliz na sua canseira, e pede-me todos os mimos a que tem direito. eram tres minutos -- sem acento, que teclo apenas com o indicador direito.

19.10.17

não chores em frente ao teu pai, minha filha.

lembrei-me delas hoje, quando vi a rapariga lavada em lágrimas, sozinha no corredor, tentando esconder-se entre o branco das paredes e o cinzento do chão. a dor de uma morte anunciada.

15.10.17

reconheço o voo de um morcego, no sopro quente da noite, enquanto taeko e yukiko descem a ladeira. chia, agitando atabalhoadamente as pequenas membranas. talvez depois da caça - e a noite promete - se junte a mim outra vez. que belo par de dança faríamos os dois.
é o bafo do diabo!, grita Cirilo, antes de tapar a boca e o nariz com o lenço vermelho. avançamos naquele deserto de terra fina que o vento levanta em remoinhos bravios. o ponteiro marca 34º. devem estar bonitas as avenidas da cidade grande, murmura Petra perto de mim, ajeitando o pano do rosto, com as folhas a dançar no asfalto. continuamos a caminhar, carregando o cansaço mudo às costas. sem nos darmos conta, arrastamos os pés pelo chão castanho, pequenas dunas intermináveis, numa busca sem propósito. alguns de nós, entre as rajadas de vento, começam a soletrar nomes estranhos de doenças, enquanto os restantes encolhem os ombros, gemendo que é só cansaço. ninguém se atreve a desejar a chuva em voz alta, temendo o peso da lama nas botas. é o bafo do diabo, grita outra vez Cirilo, anunciando a trovoada que está a caminho, temos que nos despachar!
é feroz o cansaço que me cavalga, depois de uma noite inteira deambulando pelos corredores deste labirinto sem fim.

13.10.17






...
No centro da cidade tumultuosa
no ângulo visível das múltiplas arestas
a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa

...

cereja, Beta, hoje é cereja! e um flute de champagne, se faz favor!
e a Beta ri-se, [e eu gosto de fazer rir a Beta, que é uma moça simpática,] e manda-me sentar na cadeira almofadada.
dizem-me que tenha calma, que cheguei cedo demais, que tenho de ensinar as pessoas -- logo eu, que chego sempre no final da festa. aceno ligeiramente a cabeça, para desviar o rumo da conversa, enquanto tacteio a garganta, tentando adivinhar quão perto estará a corda do nó.
eu, que de bom grado voava numa vassoura de casa para todo o lado, que adoro gatos em qualquer cor de pêlo e vejo nos cemitérios excelentes passeios culturais, nunca pensei poder vir a temer isto das sexta-feiras 13. vai mau o dia, hoje.

7.10.17

aos sábados à noite, o bando, grupo indefinido de esconjurados, junta-se para disfarçar a solidão. na urgência de uma desordem que os distraia, cada um procura o seu pecado pessoal. hoje, eu escolho hibernar.








...
Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

...
plano b:

receando a putrefacção acelerada,
com trinta e três de máxima outonal,
basta alguma varejeira estropiada aparecer;
- não quero que me fotografem apenas o osso,
isso seria a ironia de uma vida inteira -,
talvez adie isto do suicídio para outra altura,
quem sabe no dia de natal,
e hoje vá trabalhar.
plano:

vou encher a banheira,
decorá-la com espumas termais,
a garrafa de krug gelada,
a carne depilada,
e afogar-me com estilo.
uma morte digna de ser televisionada,
partilhada nas redes sociais.

6.10.17

não vejo outra solução, tens de a matar, diz-me Tristan, quando terminou de ler. nunca findará.

5.10.17

trago Boris Vian e António Franco Alexandre na mala. as formigas e aracne. sinto-me afortunada com tão bela companhia.
Alimento a esperança de que um dia chegarei a casa com as mãos cheias de ventos. Para já, continua a escapar-me entre os dedos. 

                                                                                                                                      Tétisq


há duas noites que me deito com as almas de vento dançando nos canaviais. entrelaçam-se em correntes frenéticas que me assustam, bramindo como o vale lhes pertence. os cães, sentindo-lhes a presença, atiram-se de dentes afiados num ladrar continuo. o medo que se apodera das minhas pernas e do coração que dispara no peito não me impede de as procurar na escuridão da varanda. ouço-as, mas continuo sem lhes conseguir responder. o vento é a alma dos mortos.

3.10.17

se o outono fosse meu*, hoje passava a tarde na floresta - casaco de lã, botas calçadas, Taeko e Yukiko comigo -, saboreando o cheiro da resina e o verde dos fetos tacteados, ao som das ferreirinhas, e só voltava pela hora do lanche, scones mornos com manteiga e doce, chá de tília e marmelos assados, pelas mãos ternas da minha mãe.

Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros







*movimento outonal iniciado pela Mia, seguido pelo Impontual e pelo Talqualmenteoutro

1.10.17

com a ideia de me convencer de que vale a pena ir votar  daqui a pouco - ou desenhar pilinhas falantes no boletim - num dos vários aldrabões cá do burgo, decidi manhã cedo ir lavar as latrinas do gatil. não podendo remover o estrume camarário, - espaço, garantidamente, com mais corrupção e compadrio por metro quadrado -, sempre limpo alguma merda.

29.9.17


para terminar, de uma vez por todas, com a ditadura mercantilista dos bloggers do costume, repetideiros enjoativos, plagiadores de segunda (quando não de terceira), supermamãs em fotocópia e donas de casa sem grande jeito,

nestas eleições, eu voto Palmier Encoberto