9.12.15

«dobrá-los, é a antecâmera do vandalismo, o regresso à barbárie, coisa de descendentes de hunos.» 

J. E. de Andrada, essa personagem com cheiro a colónia Bois du Portugal, ousou, enquanto lapidava o património emocional do pauvre J., atentar contra as minhas mais intimas cerimónias de leitura. Não que a obscura criatura, bolor de arquivo-morto da biblioteca nacional, o soubesse, pois tais criaturas apenas travam conhecimentos consigo mesmas e uma meia-dúzia de lacaios, pobres coitados ou oportunistas. Circulam sempre no mesmo pântano social, vulgarmente designado por elite portuguesa, onde a velha nobreza, bafienta, e tantas vezes bastarda, se espoja junto da gorda burguesia, dignitária dos mais altos pousos e aventais.

Ora J. E. de Andrada, num desses colóquios unipessoais, de que os intelectuais, outrora exilados em terras de Sua Majestade, tanto apreciam, achincalhando, como é de seu costume, o pauvre J. ,

- que, se estivesse na novela das nove, já teria fugido, casado, copulado três filhos, largado, arrependido, voltado, amado, desaparecido, talvez assassinado (ah! o horror de não saber!), reaparecido, em coma, etc, etc, etc... com a doce Orchidée, ao invés de fustigar as falanges, como se fosse um miúdo no recreio -,

             decidiu condenar alguns dos mais belos hábitos de leitura das gentes, que, ao contrário dessa anta, múmia disfarçada em tecidos de lã de alpaca, lêem um livro com a mesma vontade com que tomam um corpo amado, contemplando, cheirando, tacteando o papel sob o dedo húmido, dobrando o canto da folha como quem desliza sobre a pérola mais perfeita do mundo, ou forjando, a jactos de tinta, a certeza da lembrança eterna.

Experimentasse o Magnificente Professor Doutor J. E. de Andrada passar os dedos pelas folhas pálidas da sua bela Orchidée e dobrar-lhe os cantos de quando em vez, e não lhe sobejaria tempo para o parlapatório, declamando ignóbeis infâmias sobre o que, claramente, desconhece.