31.12.16

do homem, nem sinal. é novamente outro homem, num tractor maior, que lavra o terreno junto ao laranjal. as garças-boieiras, talvez outras também, continuam a picar a terra revolvida, indiferentes ao roncar da máquina.
tentei um recomeço, mas tudo é uma continuação.
a vida é, afinal, uma elipse catatónica.
Laura Makabresku

30.12.16

respiro os gases azuis dos combustíveis, sempre que vagueio pelas ruas estreitas do meu labirinto. nas sarjetas, misturam-se os dejectos dos cães citadinos com as águas pluviais, recolhidas na estação próxima dos comboios de velocidade veloz. aprendo a caminhar nestes passeios periféricos que nunca foram os meus, despindo o casaco arrogante, comprado nas avenidas. aos poucos, golpeando apenas as polpas dos dedos, que lambo, febril, vou mapeando o virar das esquinas, as vielas mais frias, os descampados onde nascem as lixeiras, as vias-rápidas onde atravesso pontes com vozes suicidas. 

não haverá lugar para balanços, neste ano bissexto que por agora finda. não creio em festejos pré-definidos e massivamente copiados, tão-pouco conheço o calendário dos planetas telúricos. repito os desejos do ano passado, - intemporais -, alguns cada vez mais distantes das minhas mãos:

para vós, o que quiserdes.
para mim, manter-me silenciosamente em saudável hikikomori. não sentir por dentro o sofrimento alheio. que o corpo não adoeça e o coração não pare numa hora má. que o acaso me ofereça os lapsos temporais que puder. que, de olhos fechados, encontre sempre o que procuro. que não me falte a possibilidade para me manter [livros incluídos] e manter a bicharada que vive sob o mesmo tecto. não ver nenhum animal na estrada, vivo ou morto. que a minha mãe continue feliz.

28.12.16

volto já.
fui só fazer bolas de neve com a geada.

26.12.16

Andrew Wyeth

ponto de fuga
insondáveis são os caminhos da vida, mistérios da natureza, minha mãe, doce vizinha, novinha, belas carnes, ó José, tinha a moça do café, não me incomode agora, senhor, tenho a sopa a ferver, a morcela é da boa, corte rente, por favor, nunca fui muito de beber, mau vinho, má ocasião, Deus ma deu, Deus ma levou, minha querida Alzira, mãe de cinco, costureira de profissão, esconde, esconde, um, dois, três, corre, malandro, que te apanho, corre, que te deito a mão, senhor, uma esmolinha, por favor, tenho fome, quero comer, a meu ver, senhor engenheiro, temos aqui confusão, veja este vazamento, nunca se viu coisa assim, maquinaria avariada, é chamar-se o homem, e que traga o irmão, o do camião. cão? cão, meu grande cão, canídeo amarelo, mijador profissional, castrado pelo ti, Jaquim, em tarde de bebedeira, bate, bate, o pão na eira, canta a dona Chitas, carpideira, adufe ao alto, Maria, vamos à feira, chamava o regedor, ai minha mãe, ai minha mãe, gritava a Laurinda na hora de parir, Paris aqui vou eu, que fujo da guarda, alcoviteira que se bufou, certamente, não nasce aqui nada, não plante, senhor Clemente, assuma que foi você, que me disse que lhe deitava o dente, jeitosa, a viúva, ai se não, corro para apanhar o vinte e oito, braço em riste, carteira no bolso interior, boas tardes, menina, boas tardes, senhor Prior, sabes se os cucos já partiram este ano?, venha cá, meu mandrião, deixe que a mamã lhe componha a camisa, no Tamisa é que era, eu e tu, num barquinho, a vogar, os cucos não partem, avó, vieram para ficar, lagartas verdes nas couves, minha mãe, não as consigo matar, o coveiro já lá está, a terra está dura, não há ninguém que a vá lavrar, Maria, olhà blusa, filha, que hoje não te podes sujar, chega o teu pai, vem da guerra do ultramar, minha mãe, meu pai morreu e eu vou me casar.

meu querido George, quantas vezes adormecemos juntos...


25.12.16

VLADIMIR
 Amanhã enforcamo-nos. (Pausa) A não ser que venha o Godot.

ESTRAGON
E se vier?

VLADIMIR
Estamos salvos.


/ed. Cotovia/


24.12.16

/ajudando a Cuca a procurar o espírito natalício, que fugiu de casa da Palmier, onde se encontrava em cativeiro há vários anos, num sótão escuro, partido em várias caixas de papelão. (apenas porque a Própria dará alvíssaras e eu, esse doce, nunca provei/



VLADIMIR
 Também deves estar contente, lá no fundo, se ao menos soubesses.

ESTRAGON
 Contente com quê?

VLADIMIR
 Por estares outra vez comigo.

ESTRAGON
 Achas que estou?

VLADIMIR
 Diz que estás, mesmo que não seja verdade.

ESTRAGON
 O que é que eu digo?

VLADIMIR
 Diz, Eu estou contente.

ESTRAGON
 Eu estou contente.

VLADIMIR
 Também eu.

ESTRAGON
 Também eu.

VLADIMIR
 Nós estamos contentes.

ESTRAGON
 Nós estamos contentes. (Silêncio.) O que é que fazemos agora, agora que estamos contentes?

VLADIMIR
Esperamos pelo Godot.

ESTRAGON
 Ah, pois é.
 Silêncio.

VLADIMIR
 As coisas mudaram desde ontem.

ESTRAGON
 E se ele não vier?

VLADIMIR (após uma pausa de incompreensão) Logo se vê. (Pausa.) Eu disse que aqui as coisas mudaram desde ontem.

ESTRAGON
 Tudo escorre.

VLADIMIR
 Repara na árvore.

ESTRAGON
 Nunca nos banhamos duas vezes no mesmo pus.

VLADIMIR
 Na árvore, repara na árvore.
 Estragon olha para a árvore.

ESTRAGON
 Não estava ali ontem?

VLADIMIR
 Estava, claro que estava. Não te lembras? Quase nos enforcávamos nela. Mas tu não
quiseste. Não te lembras?

ESTRAGON
 Sonhaste.

VLADIMIR
 Será possível que já te tenhas esquecido?

ESTRAGON
Eu sou assim. Ou me esqueço logo ou então nunca mais me esqueço.


/ed. Cotovia/


Adenda: Onde se Lê: GODOT, Leia-se: espírito de natal em fuga.

onde há gatos à janela há
mulheres de mãos nas coisas
pousadas como se esperassem por
algo mais precioso do que a vida


/Bénédicte Houart, Vida: Variações II/

23.12.16

Lila, outrora encantadora de borboletas de silfos nos planaltos da aldeia, navega agora pelo grande oceano, no baleeiro do tio Micá.  no rosto, o sal e o sol fizeram nascer estrelinhas sardentas e o vento transformou-lhe os cabelos em ondas impossíveis de domar. nunca houve no mundo animal tão grande, nem nos tempos dos dinossauros, exclama o tio Micá, de olhos postos na lua, enquanto fuma o seu cachimbo. Lila perscruta o infindável oceano em brilhos de prata, perguntando-se onde estarão as grandes borboletas do mar. em breve será natal e terão de voltar a Akureyri. assobia baixinho, mais uma vez.
a pedido de Milu, a única aranha de Niflheim a circular pela blogosfera, deixo votos de boas festas em filigrana de orvalho de vinte e quatro quilates.



22.12.16

os meus flocos de neve,
para todos vós.

mas não posso, como poderia chorar-me aqui, se ali mesmo, a dois passos, perto de vinte, com mais de quarenta, ficaram sem o emprego de uma vida e lá em baixo o pobre mendiga, pedindo lume para a beata, como? não posso. apenas do pés me queixo agora, que de tão gelados, parecem queimar.
sei que foi do chá, o maldito chá de cidreira - tivesse eu bebido um copo de vinho e jamais esta triste melancolia se aninharia tão pesada no peito.
e os pés sempre tão frios.

21.12.16

acordei cedo, neste que dizem ser o dia mais curto do ano. da secretária, ladeada pelas três magnificas: Rosácea, Violeta e D. Poinsétia Verde (Bruno de Carvalho haveria de gostar), vi o nascer do sol, como vejo quase todos os dias, enquanto marfava mais duas fatias do bolo-rainha do lidl: 5 estrelas, sem hesitar, e enchia o bandulho de café com leite, que, a bem dizer, era leite com café. Taeko e Yukiko já voltaram do campo, ainda não foi desta que chegaram à China, tal vai a fundura do buraco. o Sr. Gato continua na despensa, a latinhas, que o pobre já não tem dentes, areia limpa de dois em dois dias, tal é a quantidade de urina, e saquinhos de água quente, electricamente aquecidos de manhã e à noite. está velhinho, mas mantém-se estável. continua a ronronar como um jovem, quando lhe faço festas. não que o tenha conhecido jovem, mas aquele cerrar de olhos e esticar de fronte diz tudo. o submarino já se encontra na temperatura perfeita e o tanque central vai agora ser preenchido a três quartos de água quente. levo o meu poeta azul pela mão, para que me beije, enquanto navego.
parece-me, pelo menos por agora, que estou no bom caminho para a melhor celebração do solstício de inverno em Niflheim.

19.12.16

o meu pinheiro

cumpri, mansamente, animal da mesma manada que vilipendio, a obrigação de adquirir pechisbeques, chocolates e garrafas de vinho. com a idade, confesso, deixei de me importar. este natal nada me diz, e se, para que não me incomodem com olhares tortos e meias palavras, é preciso encher-lhes as mãos, pois que seja.
num final de tarde de dezembro, o frio da montanha galopando no vazio dos raios de sol, a mãe manda-os ajoelhar de frente para a campa de mármore. nenhum se atreve a falar. sem saber porquê, sobe um pouco a saia de fazenda e pousa os joelhos nus rente à pedra irregular. devagar, esfrega-os, procurando as pequenas arestas aguçadas, para que a pele se rasgue. a dor, fina, ataca-lhe o corpo, obrigando-a a trincar os lábios por dentro. as lágrimas mantêm-se no limbo dos olhos grandes. está sozinha, os outros nada vêem, rezam alto um pai-nosso. 
a música veio sem a esperar, como que predestinada ao momento. esqueci as folhas castanhas na relva, as árvores esbeltas e as linhas direitas da pedra branca, que durante anos foram minhas, e fugiu-me o pensamento para o meu pai. o meu pai, o argentino, chamou-lhe um dia o meu avô, com desdém, obrigando-o a minha presença a conter-se na linguagem. e foi com o meu pai, belíssimo no seu fato impecável de domingo, botões de punho em prata, o relógio de corda do meu bisavô, bigode de galã, dançando  tão bonito com a minha mãe, que regressei àquele que agora é o meu presente.
que doce engano este, o da memória selectiva.

pelo meu pai, de quem aprendi cedo uma valiosa lição: o desamor fortalece.
se tiver de cair, que seja porque me tombei.

18.12.16

após sete dias, em que apenas o criador se encarregou de manter o universo intacto das tempestades celestiais, incumbindo-me da tarefa de vagabundear pelas ruas da cidade, tomando o gosto às chuvas de inverno, regresso a esta casa, que me parece cada vez mais fria e anacrónica. foram sete longos dias, por vezes curtos demais, em que tantas vezes tive de me socorrer da apneia auditiva, do gesto preso e do olhar vazio, para conter a vontade de destruir todas as montras de natal e fazer uma grande fogueira de livros-massapão e papéis de embrulho.
nestes sete dias, apenas uma vez fui feliz ao som da realidade. obrigada, Patti.

A Hard Rain’s A-Gonna Fall, esta sim, talvez uma canção de natal.

10.12.16

A linguagem é uma pele: esfrego a minha linguagem contra o outro. É como se tivesse palavras de dedos ou dedos na extremidade das minhas palavras. A minha linguagem treme de desejo. A emoção resulta de um duplo contacto: por um lado, toda uma actividade de discurso vem acentuar discretamente, indirectamente, um significado único, que é «eu desejo-te», e liberta-o, alimenta-o, ramifica-o, fá-lo explodir (a linguagem tem prazer em tocar-se a si própria); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, acaricio-o, toco-lhe, mantenho este contacto,

/Fragmentos de um Discurso Amoroso/

9.12.16

If you could say it in words there would be no reason to paint.

Edward Hopper

passámos, há muito, o tempo dos ímpetos arrojados, nascidos do início feroz de todas as coisas maiores, vontade férrea de transformar; agora, mais do que empunhar bandeiras e palavras de ordem, exibir a verve de palanque, urge-nos pisar um chão que não nos afunde no lodo disfarçado de mundo, pela berma da estrada.

/Godot espera-se na berma, perto do chorão que não chora mais, mas a vida segue, sempre, para lá da próxima curva./

8.12.16

meu querido Cesariny, transladam-te os restos mortais, esquecem-te a alma grafada.


voz numa pedra

Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento

Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhes como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
«a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa nenhuma»
nada está escrito afinal        

Mário Cesariny
in Pena Capital
hoje, e corrijam-me se estiver errada, que me faltou a catequese, é o dia em que se comemora a procriação divinamente assistida.

Melissa Honey é séria candidata ao lugar abandonado por Vendredi. não fosse aquela cicatriz profunda que me faz temer pela sua longevidade e catalogava-lhe já as propriedades. talvez Melissa Honey não seja a minha salvação, - porque há pessoas que nasceram para não serem salvas -, mas, por agora, espero apenas que se esforce na sua principal tarefa de me manter à superfície de mim.
Ainda bem
que não morri de todas as vezes
que quis morrer – que não saltei da ponte,
nem enchi os pulsos de sangue, nem
me deitei à linha, lá longe. Ainda bem

que não atei a corda à viga do tecto, nem
comprei na farmácia, com receita fingida,
uma dose de sono eterno. Ainda bem

que tive medo: das facas, das alturas, mas
sobretudo de não morrer completamente
e ficar para aí – ainda mais perdida do que
antes – a olhar sem ver. Ainda bem

que o tecto foi sempre demasiado alto e
eu ridiculamente pequena para a morte.

Se tivesse morrido de uma dessas vezes,
não ouviria agora a tua voz a chamar-me,
enquanto escrevo este poema, que pode
não parecer – mas é – um poema de amor.


Maria do Rosário Pedreira

roubado na Rua das Pretas

7.12.16

do teu azul
poeta
brotei alva a minha flor*


Unknown


*da colecção Haiku Pirata

6.12.16

e já que abri as portas ao queixume, aproveito para recordar o quanto detesto o natal, os centros comerciais e as multidões em geral.

telefonei à madrinha, que bem melhor do que eu finge tão completamente, que chega a fingir que é boa-disposição, o azedume que deveras sente, e perguntei-lhe, esperançada, 'tão, madrinha... e este natal, bebemos as pêras ou não?! não demorou nem dois segundos a responder, mais oui, bien sûr, ma jolie fille, já comprei a garrafa! não bebo sozinha!!
ah, a falta que me faz a madrinha nos outros 364 dias do ano...
servir-me-á de metáfora para tanta coisa na vida, esta ideia de que, para aquecer os pés (sempre) gelados, o melhor é calçar meias mais grossas, quando na verdade, - experiência já comprovada -, a única forma possível é descalçar meias e sapatos e submergir a carne na água quente.
é nesta ideia feliz - o submarino em silêncio, a meio tanque de água quente - que me refugio deste dia amargo, que teima em se alargar.

4.12.16

o sol que vi nascer foi abalroado por um grupo de nuvens escuras que agora se vazam nas minhas janelas. haverá beleza na chuva forte que cai, pois ela existe em todas as coisas, mas a felicidade que me deram aqueles raios amarelos, antecipando um bom dia para secar a roupa e pôr o gato ao sol, abalroou-se também.
el deber de todas las cosas es ser una felicidad, diz Borges, o profícuo, si no son una felicidad son inútiles o perjudiciales.

ora pois muito bem, alguém vá dizer a Nanã que já chega. 
perto de Niflheim, há uma pequena aldeia onde habitam não mais do que seis almas vivas, conhecida pela mudez das mesmas. contam as gentes de Niflheim, quando as longas noites de inverno, perto do lume, cabem dentro de uma garrafa de aguardente, que tudo aconteceu muito antes de Niflheim existir, sendo o vale naquela altura um refúgio de lobos e feiticeiras. no tempo em que as prímulas começavam a florir, recolhiam ali, em tocas forradas a musgo de turfeira, para longos períodos de retiro espiritual e orgias zoomórficas, invocando almas do outro mundo. as gentes das aldeias vizinhas não se atreviam a incomodá-las, temendo os feitiços que as transformariam em sapos-parteiros ou coisa pior, mas às vezes, embalados pela esperança de ver aquelas mulheres libidinosas banhando-se no rio, alguns homens escondiam-se durante dias nos canaviais. diziam os mais velhos que a nudez de uma feiticeira se colava aos olhos de tal forma, que não mais havia mulher no mundo capaz de cavalgar aquele homem. a sua carne não voltaria a enrijar-se, senão para rasgar as bocas da feiticeira.
tinham medo as mães, que recolhiam os petizes, nas noites de inverno, julgando castrar-lhes a iniciação; rezavam as mulheres casadas, temerosas, quando os homens saíam à noite para a taberna; choravam as raparigas solteiras, enquanto espreitavam as ruas desertas das janelas dos seus quartos, todas as noites julgando ter visto o seu a passar.

«...felizes descobertas precoces (as carícias na pequena concavidade que ela tinha na base da espinha, a exploração dele com a ponta da língua dos bordos das narinas dela, o seu lento sugar dos olhos fechados dela, a cabeça do seu pénis pressionando o umbigo dela, o seu dedo desenhando o períneo dela, as pernas dela à volta do pescoço dele, as nádegas dela esfregando-se contra o sexo dele, a sua boca generosa, e sobretudo a descoberta que ela fez da extrema sensibilidade, rara num homem, dos mamilos dele...»


os detalhes da desfloração de Vina Apsara por Ormus Cama, in O Chão que Ela Pisa, de Salman Rushdie

3.12.16

a chuva, caindo em urgência no beiral, abafa o primeiro jorro de urina.
é novamente segunda-feira.

2.12.16

esta semana, quis o destino que me calhasse desalojar (uma) Milu, da porta do carro velho. insensível às suas longas pernas trémulas, larguei a pobre junto à zona dos aspiradores do elefante azul. nunca faria tal coisa a um mamífero |se até o rato transportei para a segurança do mato cerrado|, tão-pouco o fiz com a Carlota, por que diabos cometi tal infâmia com o pequeno aranhiço, tantas vezes sinédoque do meu pensar?

27.11.16

Lee Jin Ju

tive direito a quase tudo, a luz lilás do entardecer, taeko e yukiko escavando debaixo da figueira, misturando o cheiro da terra escura ao doce putrificado das maçãs, cogumelos mansos nascendo entre o verde da erva;  perto, uma motosserra abrindo a madeira, os gansos do outro lado do vale, a silhueta a tinta da china de mokambo, pousado na árvore morta onde descobri o rosto de herberto, pássaros que não conheço trinando perto de mim; alto, um avião em direção às nuvens cor de pêssego.
ironia das ironias, a mais fina e requintada profissional de lupanar, continuo na segunda-feira e logo à noite será  domingo...
não fosse eu esquecer-me de que hoje é segunda-feira, logo pelas seis da manhã, a mãe deusa das regras fulminou-me a zona dos rins com vários arpões em aço inoxidável, enquanto me arrebanhava as tripas, apertando-as em remoinho. arrastei-me à casa de banho e ali mesmo, deitada no tapete vermelho, olhando fixamente o velho candeeiro redondo, forcei a cura. quinze minutos depois, levantei-me a sorrir.
ultrapassados vários ciclistas e papa-reformas a caminho sabe-se lá do quê, pé no acelerador na estrada larga, eis-me numa pastelaria com nome francês: pain au chocolat et café au lait, s'il vous plaît, merci. perto, uma turba oriental em volta da senhora das raspadinhas. contam o dinheiro com um sorriso que lhes desconhecia. possivelmente tão sincero quanto o meu, quando já me besuntava no pequeno brownie de chocolate com nozes pecã (senhores!!!).
caminho finalmente para o destino. à minha espera, um bigode, sorridente, que me lembrou dos que deixei em casa - se me despachar, penso, ainda consigo a tarde de domingo!

26.11.16

bolachas de chocolate que fazem parelha com cerveja verde, podiam ditar-me grávida, não estivesse menstruada, marcando mais um mês no calendário. calças de ganga e botas das obras, como gosto de chamar às amarelinhas, podiam passear comigo na rua, quem sabe ir até aos jardins da Gulbenkian, guarda-chuva preto dos corações, em vez disso, amarram-me a esta velha e magra cadeira, onde outras palavras esperam para serem escritas, enquanto os meus olhos imploram a ilusão.
tão bom, quando o mundo dentro da minha casca de noz me traz coisas assim. e logo a mim, que ainda guardo as memórias da biblioteca, trabalhando os jesuítas, e de Urbano no conserto do mundo.

do cinema, pela mão de Scorsese, chega o trailer de Silence, adaptado do livro de Shusaku Endo. do livro, disse Urbano: "Fica-se quase doente ao ler Silêncio, mas rendemos-nos à verdade e força dos estados de alma e das confissões das personagens. As descrições da natureza são magníficas: as estações do ano, as árvores, as cigarras, o concerto dos pequenos animais da floresta." (daqui)

25.11.16

até quando encontrar
seus fios de cabelo
no meio dos meus livros?



*

agora
imagine
uma
caixa
torácica
de
bom
tamanho
acústica
saudável
onde
pulsasse

bem-
acondicionado

do
lado
esquerdo
do
peito

um
baço. 

           
*

                    
outro dia mesmo, vadiando as gavetas,
topei com uma de suas costelas.


o que um dia foi pra mim
lua crescente, pente,
bumerangue de marfim


(e – ainda – quantas vezes
arco para violinos genoveses?),


hoje é apenas um souvenir
de timbuktu.


                         
*

talvez depois sorrissem, se um deles
perguntasse, patético, aturdido,
na noite exumada:

o único osso
que restou de nosso
amor decomposto


é a lua,
essa mesma lua 
linda lá no alto?


                   
*

                              
(não que fosse aquela nudez
o primeiro alumbramento.)

você lembra?

ali parados, o coração batendo,
surrados
por uma corja de borboletas.


         
*

     
não é o tempo, necessariamente.
não é da alçada dos relógios.
o vento
                               
é que comove as árvores, despenteia
o móbile das lembranças.


rodrigo madeira
oriundo do pequeno país do continente e famoso contador de estórias,  júlio - e o seu bestiário mágico - tem viajado comigo, nestes que têm sido os tempos das descobertas azul profundo do mar. Alyyah, ora peixe, ora pássaro, é massa espessa que me navega as veias e à noite se deita ao meu lado. tal como o rei que reinava sem nunca ter visto o mundo, também eu me atrevi a abandonar o palácio e a procurar o meu deserto. júlio diz-me que todos temos um tempo à nossa espera, enquanto improvisa algumas notas no velho trompete.  se algum dia encontrares o rei de quem fala Tagik, o berbere, repete-me, quero apenas que lhe ofereças estas palavras:

Allá al fondo está la muerte, pero no tenga miedo. Sujete el reloj con una mano, tome con dos dedos la llave de la cuerda, remóntela suavemente. Ahora se abre otro plazo, los árboles despliegan sus hojas, las barcas corren regatas, el tiempo como un abanico se va llenando de sí mismo y de él brotan el aire, las brisas de la tierra, la sombra de una mujer, el perfume del pan.


/Instrucciones para dar cuerda al reloj: traduzido aqui/

23.11.16


Adara Sánchez Anguiano

abocanhou-a pelo cachaço, até sentir um frémito de calor nos testículos.

20.11.16

...

"Às vezes estou tão excitada que basta tocarem-me nas mãos, apertar-mas com força, e tenho um orgasmo quase instantâneo!"
"A sério? Só de te apertar as mãos?"
"Estavas desatento!"
Fez-se um silêncio risonho.
"De facto, da forma como falas com o corpo, não pode ser surpresa!"
Corando e apontando o olhar para o chão, respondeu com o tom de uma menina pequena:
"Não dá mesmo para enganar, pois não?"
"Falas como se isso fosse mau..."
"É que assim sinto-me sempre nua!"
"Só os semelhantes se reconhecem entre si."

...


/a mulher dos aforismos - enfermaria 6/
Há pessoas que conseguem morrer em órbita e outras que se esmagam no fim da queda. E outras (às quais pertenço) conservam sempre em si como que uma tímida nostalgia da dança em roda perdida, porque somos todos habitantes de um universo em que todas as coisas giram em círculo.

/O Livro do Riso e do Esquecimento/
há baleias voadoras urinando chuva miudinha, por estes lados. já não sorrio à sua passagem, pois sei que em breve chegará mais uma leva de caracóis e lesmas gigantes e a minha agonia nunca terá fim.
Sr. Gato convalesce na despensa aquecida, com ala própria, preparada para o efeito: wc privativo e cozinha equipada com tigelas de água e comida. não havendo ainda resultados das análises, é dar mimo, comida e calor. no deita levanta que foi a noite, Taeko e Yukiko, ursas ciumentas, passaram de minhas sombras a carraças das minhas pernas. culpa minha, que trago as bichas mais mimadas que bloggers famosas em dias de inaugurações. milu, a minha querida milu, que ainda ontem - em versão gigante - enxotei com a vassoura, aguarda por mim no canto do costume, no tecto do submarino. assim sendo, resta-me ir buscar a caneca do café, quem sabe fazer umas torradinhas - que o pão está duro e preciso de desenjoar das papas - e submergir-me no dia santo, que se avizinha curto. se a edp não me falhar e o Sr. Gato melhorar mais um bocadinho, diria que será um bom domingo.
/atlas/

A unos trescientos o cuatrocientos metros de la Pirámide me incliné, tomé un puñado de arena, lo dejé caer silenciosamente un poco más lejos y dije en voz baja: Estoy modificando el Sahara. El hecho era mínimo, pero las no ingeniosas palabras eran exactas y pensé que había sido necesaria toda mi vida para que yo pudiera decirlas.

Jorge Luis Borges

19.11.16

talvez noutra vida o acaso troque os papéis da cena e me calhe a mim ser o rato silvestre |são tão fofinhos|, Ramirez, o espanhol, fará de flor coração de margarina, a caridosa, e ao roedor caberá, finalmente, o papel de gato sádico e psicopata.
Rosácea



Rosácea, a roseira anã, presenteia-me com um pequeno botão, no dia em que - espero - Sr. Gato, o velhinho, regressará a casa, para viver mais um par de anos comigo. espero, mas receio. 

18.11.16

no seu voo atarracado, Mokambo, o mocho-galego, alcançou o pilar de madeira, enquanto eu observava Marlon Brando, escondido no meio de um tufo de erva verde-belo. Taeko encontrava-se a pouco mais de dez metros, mas deixou-se ficar deitada. suspiro de alívio, de tigela nas mãos - dieta de papas com cheiro a maçã, em busca dos quilos perdidos -, e pondero o banho no submarino. talvez - finalmente - tenha aprendido que os felinos são senhorios destas terras, de igual modo como suas majestades, as duas gordas. Mokambo, por quem me apaixonei faz tanto tempo, abre-me ainda mais os olhos |como são bonitos| e deixa-se ficar no seu poiso. felizmente, para bicho de estimação, não me exige (ainda) tigela cheia, nem manta polar.
o vale, vestido de outono, enche-me a vista. perto, uma vizinha, em posição de lótus, procura o seu nirvana. estranhamente, de olhos fechados. 

17.11.16





sei que fiquei presa num canto da sala, invisível.

15.11.16

morrendo, numa prateleira de qualidade ikea

13.11.16

a maior dúvida era saber se a placa - da belíssima cozinha que é a minha - ainda funcionava. trouxe a pasta fresca de uma loja/restaurante perto de entrecampos, cortei dois portobellos para dentro da frigideira, reguei com vinagre balsâmico e pouco mais. há uma garrafa de vinho tinto à espera do saca-rolhas.
ah, senhor... para quando um outro domingo assim?

o maior luxo dos últimos meses, foi este domingo de sol que roubei na agenda azul dos afazeres urgentes. para terminar esta doçura de dia, outono cor de mel e de vinho, veio a lua, prenhe de luz, fazer-me companhia na varanda. eu, envolta no casaco de lã, sorvendo o chá de tília, ela somente vestida de prata.

12.11.16

quão difícil é a nudez, quando um papel regurgitado pelo preço de cinquenta cêntimos nos mostra um número que nos magoa. sou uma magra triste. pouco mais do que uma pequena carcaça.

Davide Padovan

I'm ready, my Lord




É esta condenação, lava ardente, suco, sémen, semente, esta inconstância só minha. Sonho uma morte violenta, a quente, bala na têmpora, carro despistado, cara desfeita, em contra-mão. Sonho com o vidro que me há-de perfurar a pele macia, quente, fêmea pronta em cio, cadela em ladeira esquecida, macho alfa de alcateia, sonho-me liberta de mim.

|repetem-se, em elipse|

11.11.16

dois anos de cultivo.

Nicholas Alan Cope

ninguém é impossível: suicidas por felicidade, assassinos por benevolência, pessoas que se adoram ao ponto de se separarem para sempre, denunciantes por fervor ou por humildade… Essa liberdade completa acaba por equivaler à completa desordem.

Jorge Luis Borges in Prologo, A Invenção de Morel 

10.11.16

fui roubá-lo ao Bitaites. (obrigada, Marco!)

magnífico...

9.11.16

já não me recordava de como um par de sapatos de salto alto e um bom vestido faziam tanta diferença em mim. não fosse a cara de quem dormiu pouco mais de cinco horas...

6.11.16

Reparaste como o Outono este ano veio por outro lado,
como se fosse pelo lado de dentro?


perguntou-me, quando o encontrei na wook, onde lhe fizeram aparato, e não resisti a pedir-lhe um abraço. amo o Pina desde garota, era um pai que gostava de ter.
não sei se mo disse, se o imaginei na altura, A poesia vai acabar, os poetas vão ser colocados em lugares mais úteis. Por exemplo, observadores de pássaros (enquanto os pássaros não acabarem). e eu, aflita, Que não, Poeta, que não! A poesia é o pássaro que canta, que canta onde lhe apeteça.

aguardava na fila no multibanco, onde uma senhora de cabelo lilás verificava todas as suas contas, e possivelmente as do seu agregado familiar inteiro, introduzindo e retirando vários cartões, guardando os extractos. perto, uma mãe ajudava o seu rebento pequeno a subir para o cavalinho, apenas com uma mão. na outra, já pronto a filmar, o smartphone. segura-te, pá! ainda deixo cair o telefone! o miúdo choraminga, mas lá se empina no dorso da maquineta. vá, agora sorri! sorri para aqui, Martim! 'tou a filmar! a música começa e o Martim sorri.
e se eu morrer de medo?, pergunta-lhe ela, de olhos arregalados. morres nada, minha gatinha, eu vou contigo, é a resposta pronta que chega do rapaz, enquanto a aninha junto ao peito e lhe dá um beijo na testa. ela sorri.

/e eu sorrio também, mas para dentro, fingindo nada ter ouvido. ah, fosse tudo tão belo como estar ancorada num par de braços. miau... /

5.11.16

“Como não tive filhos, o que de mais importante me aconteceu na vida foram os meus mortos, e com isto refiro-me à morte dos meus entes queridos.”

Rosa Montero, A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te





|fico aqui, sentada nesta puta desta cadeira, dura e feia, relendo as palavras que nunca escrevi, mas sinto como minhas. às vezes, acontece-nos assim.|

{sonhos de abóbora para o Manel}

na brincadeira, sem revelar a fonte da ideia, pergunto à Lucinha se já tem sonhos à venda. parece que não, sonhos, diz a Lucinha, ao contrário das decorações natalícias, só em dezembro. portanto, Manel Pero Vaz de Caminha, escrivão-mor do galeão Cuca Melissa Pamela, nada feito, mais vale comeres as farófias.

as duas mulheres do salão que frequento de quinze em quinze dias não se dão. a agressividade com que se tratam, coberta de sorrisos de ácido sulfúrico, mantém as clientes em alerta permanente, não podendo as dos cabelos trocar novidades com as da manicure e vice-versa. as conversas, esse elemento valioso dos negócios de salão, são tão curtas por aquelas bandas, que bastas vezes se consegue ouvir o ponteiro dos segundos numa volta completa. podia ser desagradável - e será, para quem espera pela ocasião para limpar a alma, que traz cinzenta de casa -, mas para mim, aquele silêncio de arame farpado vale ouro.

3.11.16

ah, a beleza da perspectiva...

1.11.16

rezei pelos meus mortos no velho pomar, trincando uma maçã amarela. no final, atirei o caroço à terra e guardei novamente as memórias.
quase sinto pena e tenho vontade de lhe dizer, o problema não é a tua opinião, tens tanto direito a ela, como os outros à sua. o problema reside no palanque em que te colocas para evangelizar o mundo com as tuas certezas. porque insistes tu, sempre, em querer ganhar a taça da gaja mais inteligente e despachada? que anjo te soprou ao ouvido que tu eras a escolhida? que homem te tão humilhou para que julgues agora que tens de ser o centro de cada universo por onde passas?

mas depois observo-lhe melhor a petulância com que disfarça o medo de ficar sozinha e a teimosia de quem se esconde nas frases que decora das muitas folhas que apregoa ler - estranhamente, a maioria delas figura sempre nas lombadas, sinopses e artigos da especialidade -, e nada digo. sinceramente, não vale a pena.

das várias razões existentes para engordar, a que me ocorreu esta manhã, deitada no submarino, é a de como, faltando a carne, fico sem almofada para o osso sacro. é incómodo, tendencialmente doloroso, e, já tendo sido eu, em tempos juvenis, dona de um traseiro de referência, nada disto faz sentido. ocorreu-me a constatação, enquanto admirava as decorações alusivas ao dia, que milu, com a ajuda preciosa da dona da bata às riscas, me deixou, do candeeiro ao tecto.
quando as noites me magoam, rosno-lhes, incapaz de mais. as noites, brutas, julgando-se donas de mim, atacam-me impiedosamente os flancos destapados. eu riposto com gritos metálicos, mas logo que posso, tento o refúgio na rigidez dos dentes cerrados, esperando que o silêncio me livre das agressões. quando os deuses são generosos, o sono pega-me ao colo e leva-me para o outro mundo.
estas são as noites com sabor ao lodo do fundo de um poço. o castelo desmoronado.

31.10.16

{um poema para a Miss Smile}


Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas – podes pensar
Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita,
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia – e essa é a verdade – cresce sempre
Apesar de nós.
Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,
Mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
A colherei.

A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão

Daniel Faria


excerto de A Gorda, de Isabela Figueiredo

difícil é não comprar o livro.
obrigada, Isabela.

porque há bloggers assim, capazes de tudo, até de tentar envenenar as orquídeas das outras...


a prova

30.10.16

da odisseia que se iniciou em julho do corrente ano e de como flor de espinheiro, a própria, tem sabido, com a sua total inexperiência, manter Violeta, a imperatriz tropical, em tamanha beleza.

[roam-se, bloggers famosas!]


Violeta, a trinta de outubro de dois mil e dezasseis

/é impressão minha ou as flores de Violeta, a orquídea, parecem monstros do espaço?... abelhas-mamutes?.../

encontrar uma teia de aranha, ainda que pequena - a teia, que de Miluzinha, nem sinais - no lava-loiças, há-de ter algum significado, mas prefiro não reflectir sobre coisas profundas tão cedo. aproveito estes sessenta minutos, oferecidos pela boa-vontade do mesmo alguém que daqui a seis meses os rapinará sem piedade, para pôr as pernas ao sol, observando taeko e yukiko na felicidade da escavação, em companhia da última bolacha e do último pacote de leite, morno, com duas colheres de mokambo. também não quero reflectir sobre isso agora. por arrumar vejo ainda o saco dos felinos e a caixa das gordinhas. está tudo bem, nada nos falta.

/o próximo animal que me vier parar às mãos, há-de chamar-se mokambo/a. caracóis e primas lesmas não contam. nem bichos de prata. perdoa-me, senhor./   

29.10.16

é sábado, sente-se sozinha, ouço-a dizer. de olhar caído no chão, continua a mendigar algum carinho, numa voz de queixume, enjoativa, repetindo-se em súplicas. a conversa pouco mais dura. mal desliga o telemóvel, dirige-se, apressada, à casa de banho. dá-me pena.
devia ser proibido implorar o amor.
o meu poeta azul tem o olhar mais belo que já beijei.
confesso: quis embebedar-me, ontem à noite. quis embebedar-me como há muito não me lembrava. avancei no jinzu, como quem avança nos sumos de pacote. queria, à força, suprimir aquela necessidade imediata de pensar nas coisas. pois que sim, o dia foi longo, ainda tinha de voltar ao escritório (ah-ah-ah!), nem é tarde, nem é cedo, é a hora certa para me embebedar. não uma dessas bebedeiras de secundário, em que vamos agarradas pela melhor amiga até à casa de banho, não, nada disso, era uma bebedeira mais contida, mais madura, onde havia apenas olhares inebriados, gargalhadas soltas no ar e sexo selvagem na arrecadação do restaurante. uma bebedeira com estilo, quase um teledisco ou publicidade de perfume. pois então que venha esse jinzu, vício que ninguém me entende e ainda me acusa de nem ser gin de verdade. gin de verdade ou não, a meio do segundo, fiz contas ao preço, lembrei-me do saldo da conta, e decidi que me embebedava noutra altura, quem sabe no natal, com uma caixa tamanho familiar de mon cheri. da desejada bebedeira, passei à ingrata depressão. raios partam o jinzu!
entraram as duas, três pisos depois, não as observei, entretida que ia na minha azáfama, até que decidiram iniciar conversa, debatendo a problemática do acrílico. eu, patega acabada de chegar ao gelinho, deixei-me ficar, até ao rés-do-chão, a aprender a ser uma mulher moderna.

/sempre me ficou o gozo de ver a unha de garra - acrílico violeta escuro - em tentativas vãs de calcar no botão do elevador./

28.10.16

e quem não queria uma língua dentro da própria língua?
eu sim queria,
jogando linho com dedos, conjugando
onde os verbos não conjugam,

...

que húmida língua, que muda, miúda, relativa, absoluta,
e que pouca, incrível, muita,
e la poésie, c’est quand le quotidien devient extraordinaire, e que música,
que despropósito, que língua língua,
é do Maurice Lefèvre, e como rebenta com a boca!
queria-a toda


Herberto Helder, A Faca Não Corta o Fogo

26.10.16

quando entrei na pequena livraria da rua passos manuel, movida por um desejo insano de encontrar godot, ainda não sabia que traria al berto lunário embrulhado num saco de papel. escolhi-o pelo sexo, confesso, depois de ter lido um artigo antigo do público, opinião de alguns, que era um bom livro para ler corpos resfolgados, ainda com sabor a mar.

24.10.16

descer ao rio de lanterna na mão, as botas de borracha calcando o tapete ensopado, Taeko e Yukiko - quais vacas anãs - pastando na erva mais tenra: eis o ponto alto do dia, que, na verdade, já é noite cerrada.

/isto depois de descobrir que o vizinho trata o cão pela terceira pessoa.../

23.10.16

Rebecca Leveille Guay - Flowers

o passeio de barco prometido, como já se temia, ficou cancelado na sexta-feira à tarde, por receio do temporal. depois de terem acesso à curta mensagem, os deuses domingueiros tomaram para si a cínica tarefa de não mandar um pingo de chuva durante toda a manhã. velhacos.
almocei cedo, numa orgia de cores e paladares, - pimentos assados, tagliatelle com alperce (sim), peixe panga bem simples, puré de maçã, crepe de goiabada e queijo de cabra, cogumelos salteados, meio copo de vinho - um verdadeiro festim. do café, bebi dois golinhos, cada vez me custa mais forçar-me ao gosto queimado, e pus-me a caminho da livraria. o rapaz, por simpatia ou genuíno reconhecimento, ofereceu-me um sonoro cumprimento. o gesto quebrou o silêncio religioso entre os presentes - sempre todos tão iguais - que o rubor se me aflorou à face. ridícula, fugi apressadamente para a poesia. já em segurança, encostada às prateleiras do costume, dei início à busca, procurando algum arrebatamento dominical.
saí de mãos vazias.

/que saudades dos meus alfarrabistas./
prometi que era assunto morto, mas confesso que ainda lhe sinto o pulsar das veias, mesmo junto à garganta, onde cravei a navalha curta. não estando morto, continua a ferrar-me na boca do estômago. há-de jorrar fel.
PANTONE 316 CP

num abraço entre o verde denso da serra a pique e o azul profundo do mar, nasceu a cor que me acaricia a alma.

22.10.16

Durante quinze, vinte, mais minutos, esqueço o que vejo. Concentro-me só no quadro onde vão sendo anotados números, o giz a raspar a ardósia e a manchar-se de vermelho. Altura: 1.64m. Peso: 80 Kg. Cérebro: 1250 gramas. Coração: 400. Pulmão esquerdo: 730. Pulmão direito: 650. Fígado: 500. Pâncreas: 100. Baço: 140.

Penso só que nunca saberei quais são os meus valores. Que não vou querer que ninguém os conheça por mim. Vou ser cremado. Melhor, incinerado. Isto, se não morrer de morte violenta e não me trouxerem à força para uma sala destas. À força. Sorrio. Antes de o assistente fazer uma incisão na parte de trás da cabeça, de orelha a orelha, e de levantar a pele como uma máscara e de a poisar sobre ele, o rosto deste homem era a imagem da impassibilidade. Parecia morto não de há dois dias, mas há anos, há séculos, desde sempre. Parecia já ter nascido assim: morto.

(...)


Até pegar a sério no bisturi, vivi durante um ano a exaltação da carne. Construi teses sobre a macroscopia da alma e a microscopia da textura dos tecidos. Passei a comer bifes mal passados. Comprei um coelho no mercado só para o dissecar no lavatório da casa de banho e depois me habituar ao cheiro da sua decomposição. Colei na parte interior das portas do guarda-fatos as imagens mais macabras dos manuais de Tanatologia. Passeei com as namoradas no cemitério e fui discursando sobre a paz dos mortos. Fui um perfeito idiota aterrorizado com a chegada do meu confronto com a morte.

Com o tempo, deixei-me disso. A carne tornou-se banal. A minha e a dos corpos. E nessa banalidade habituei-me a distinguir com as pinças da ciência as marcas do desvio, da anormalidade, da falha. Hoje, olho para os meus mortos como mortos. É só. E olho o meu corpo como um caminho que se estreita até eles. Cada vez mais. Devagarinho. Ao ritmo do relógio que, em cima da cama, me embala os sonhos. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. A vida a esvair-se em compassos binários.

Se me disserem que um dos meus mortos já teve uma vida antes, eu respondo que só me interessa aquela que ainda encontro quando o abro. Uma vida que não dura mais de três horas de cortes e sangue. Com poucas personagens e desfecho rápido. Morreu. Mataram-no.

É verdade que com cada corpo que me passa pelas mãos tenho uma conversa diferente. Não há duas histórias iguais. Tal como não existem duas ramificações sanguíneas semelhantes. Ou dois cérebros. Ou dois corações. Ou dois sexos. Mas a uni-los descubro sempre a fina membrana que separa a fragilidade dos corpos da brutalidade dos sentimentos. Morremos todos de excesso ou de falta de amor. E morremos sozinhos, de regresso à nossa odiosa singularidade.

Morremos todos do coração, acreditem.


/Este é o meu corpo, Filipa Melo/
As coisas delicadas tratam-se com cuidado

 Desossaste-me
 cuidadosamente
 inscrevendo-me
 no teu universo
 como uma ferida
 uma prótese perfeita
 conduziste todas as minhas veias
 para que desaguassem
 nas tuas
 sem remédio
 meio pulmão respira em ti
 e outro, que me lembre
 mal existe

 Hoje levantei-me cedo
 pintei de tacula e água fria
 o corpo acesso
 não bato a manteiga
 não ponho o cinto
 VOU
 para o sul saltar o cercado


daqui: modo de usar & co


/não sei porque deixei de ler escritores africanos, especialmente elas, que tanta falta me fazem e tão próximas me são./
Odin, deus da criação, deu o leite ao homem para alimentar a mulher e à mulher para alimentar o mundo.
de Raul e Herberto, aprendi a lei da metamorfose, teoria geral da vida, das coisas e da imaginação. é no poder da transformação que nasce a tristeza crónica inveterada. no dia em que tudo for plano e o voo do condor ficar preso na linha do horizonte, a realização da condição absoluta acontecerá e explodiremos num grão de plenitude extasiada. no dia em que a mudança for impossível, as características imutáveis,  as variações imobilizadas, conheceremos, nos breves instantes precedentes à aniquilação, - feixes de luz cegando-nos -, no seu estado mais puro, a felicidade consubstancial.


numa teimosia suicida de não querer ser infeliz, morre, aquele que não se adapta.

a este propósito, dizem as mulheres das estepes, descendentes das mais bravas sármatas, não te aflijas pelo filho que chora, mas antes pelo que permanece imóvel. 

21.10.16

às vezes vejo-os, caras conhecidas, vozes familiares, um ex-colega a subir as escadas do chiado, uma antiga cliente a atravessar a rua no Marquês, um professor de inglês esquecido no Carmo. de todos fujo, nada tenho para lhes dizer e o silêncio não faz conversa.
hoje acendi uma vela na igreja da encarnação.

18.10.16

sinto-me, como nos tempos em que os lobos uivavam na minha parede, animal de mato rasteiro, em fuga felina, urinando medo -- o terror da besta que me tombará.

o desespero de estar perdida num labirinto.  

16.10.16

talvez não o diga com a frequência que gostaria /talvez a muitos nunca o tenha dito/, ou porque o tempo me escasseia, ou me escasseia a escrita assertiva, e os elogios, já se sabe, podem conter demasiado açúcar e cariar o post original.
aqui fica a minha declaração de manhã de domingo, /que já é segunda-feira e ainda ontem foi sexta/:

- é muito bom ler-vos. obrigada.
acabei por não descer ao rio, depois de ouvir os disparos, no meio do nevoeiro. tiros de caçadores estão na minha lista top #as 10 mortes mais estúpidas. 
espero que Corto Gatês, o intrépido, se acautele nas suas incursões pelos mares bravios de vegetação. afinal, foi um chumbo vesgo ou de maldade, que lhe trouxe, já depois de gatarrão adulto, o nome que orgulhosamente ostenta.

15.10.16

 
Jared Rue, Nightfall



/O universo é uma vibração. A vida é uma vibração na vibração./
 
Raul Brandão
as raparigas da pastelaria são sempre simpáticas comigo. já se habituaram a ver-me por lá nos sete dias da semana. há pouco, dizia uma em conversa, Se soubesse o que sei hoje, tinha estudado, não estava aqui metida!, as outras duas respondendo, Podes crer!
fica-me a frase na cabeça. eu, que guardo duas latas amarelas, canudos floreados a latim, com selo de prata, no cimo da estante, afinal também ali estou metida.
termino a tosta de queijo e tomate, o sumo de laranja natural, recuso o café e regresso ao trabalho. Se soubesse o que sei hoje, tinha emigrado, quando o momento era o exacto.
lembras-te de quando, os dois na cama, enrolados nos lençóis brancos, me sorvias como a uma pêra madura?
chove mansamente sobre o vale. ao fundo, Taeko e Yukiko escavam a terra amolecida, perseguindo alguma toupeira. voltarão depois, molhadas e sujas, abanando as caudas felizes, enquanto eu as tento limpar com as toalhas velhas. não tenho leite, nem café, em casa, apenas fome. o monte de roupa suja cresce no cesto. a dona da bata às riscas só limpa, não se entende com máquinas modernas, cheias de botões e amigas do ambiente. o tempo escapa-me por entre os dedos, como areia fina. tenho saudades das cadelas, dos gatos, até das aranhas, do mocho, dos livros, da terra. saudades de um abraço inteiro, de entregar o corpo à dança, de calçar os sapatos vermelhos, da minha mãe, de rir sem preocupações, de partilhar, da boa conversa, de estar mais gorda, mais bonita por fora e por dentro. 
ainda penso em procurar aquela que julgava ter sido, mas ando perdida há demasiado tempo, transformei-me num magro bicho, fingindo o imprescindível social, cada vez me mais intolerante ao barulho e à intimidade dos outros, debitada exaustivamente nas pausas do café. nesta estranheza de mim, já não procuro respostas, o que, não fazendo de mim uma pessoa mais interessante, me traz alguma paz de espírito. 

14.10.16

trago o coração inundado de lodo e tristeza.



9.10.16

meio cinza, meio nada, totalmente a larapiar a Pizarnik, a ideia por agora era mais ou menos esta: «Escribir no es más lo mío. Con sólo nombrar alcoholes temibles, yo me embriagaba. Ahora, lo peor es ahora, no el miedo a un desastre futuro sino la de algún modo voluptuosa constatación del presente infuso de presencias desmoronadas y hostiles.»


mas depois a Tétisq decidiu roubar-me a Vendredi!!

achou que bastava achinelar-lhe a nomenclatura para Sexta-feira, julgando-se na ilha ou na casa dos segredos, para que eu não desse conta da ousadia. a lambona da Vendredi, há meses a viver de pensão alheia, abusando do estigma de coitadinha, atreve-se a apelidar a sua melhor amiga - que sou eu, note-se! - de Dona. Dona! vejam bem! eu, que tanto posso usar o título de doutora, como de engenheira, como de Magnífica, sou chamada de DONA! quiéláessamerda?!? a vontade que me deu de rodar a baiana, pôr a mão na anca e avançar para o murro na tromba, como fez a nossa amazona maior, bem na fuça do Trampa!
fraquinha dos ossos, lá me aquietei, não fosse o bando da hospedaria juntar-se à enjoadinha da camareira, e aquilo já é tanta gente, que saía de lá sovadinha de todo. decidi que a coisa passava pela estratégia, plano para mulheres habituadas a lutar nas barras dos tribunais e nas assembleias dos condomínios. procurei a Palmy e o seu famoso e terrível cão de loiça, animal arraçado do mais duro betão e peitorais de touro das américas, pensando eu que isto das bloggers famosas é só lérias e as agendas preenchidas não passam de conversa fiada para as pinipons baterem palmas. nem quis acreditar quando a porteira me respondeu que a Senhora andava acarretar tijolos na obra... jesus...

Vendredi, minha desengonçada, estás a deixar-me tão fora de mim que penso já em soluções terminais para te liquidar de uma vez por todas! trancar-te no petroleiro da Cuca, a esfregar o convés, ou pedir ao Rentes que te meta na cama com o Meças a cair de borracho, ou, melhor ainda!, pedir ao Pipoco para te apresentar a um dos seus amigos, quiçá ao pavão do Melchior de Mello.

Se mesmo assim, insistires em dar-me cabo da paciência, andando por aí, de blog em blog, assassinando o meu bom-nome e reputação elevadíssima, eu juro, Vendredi Maria dos Três Anjos da Anunciação, que te ponho uma semana a tirar estrume à forquilha na vacaria do Atalho!! ou te mando com a Linda lá pró Giná (não, estupida! não é prá revista! isso querias tu!) pra veres o que é bom prá tosse e pra esse nalgueiral descaído!

8.10.16

este blog está a pensar em seguir os valentes passos de Vendredi, moça de quem nunca mais se ouviu falar.

5.10.16

sim, o anjo do inverno já soprou no meu pescoço. trajo um dos pijamas de malha grossa, acompanhado de meias fofas e gordas e pantufas com pelinho.
mas insisto na parede de vidro completamente aberta, a varanda oferecendo-me a noite pura, uma lua tão delicada. 
correndo entre gentes e locais, vi-o. Raul, a minha paixão antiga, estava ali, no meio de alguns livros toscos, a menos de cinquenta passos. corri-lhe para os braços, aninhei-o no meu pequeno peito, não o voltei a largar.
a pedra ainda espera dar flor...


«Mesmo na desgraça colhemos uma flor se a encontramos no caminho, e nem agora nem nunca nos havemos de desinteressar das coisas simples e eternas que são o encanto máximo da existência. A sua ausencia total só no inferno se concebe.»
 
/pág. 189, Quetzal/

2.10.16



Patrick Leger

uma série de acasos leva-me a sair no preciso momento em que a ave de rapina, alto, deixa cair o animal do tamanho de um pequeno coelho. se não lhe morreu nas garras, duvido que tenha sobrevivido à queda.
a natureza, definitivamente, não é vegetariana...
Rosácea, a pequena roseira que há duas semanas comprei - novamente - num espaço comercial, tem feito as minhas delícias pelos tons de rosa, desde o seco suave ao mais escuro cor de vinho. dou-me conta, agora que Rosácea floriu quase todos os seus botões e alguns deles já secam em rosa sangue,  que ganhei nova função: catadora de pot-pourri.

a ladeá-la, Violeta, a imperatriz, e D. Poinsétia, a brava sobrevivente do último natal, já sem vermelhos.
sento-me na esplanada mais próxima, com vontade de um chá e um bolo seco qualquer. o homem com quem tinha combinado encontrar-me, e por quem alterei o meu (único) dia livre, respondeu-me que afinal estava fora de lisboa, seria melhor falarmos amanhã.
o encontro, coisa simples, estava marcado há quase uma semana, confirmado por telefone e correio electrónico, e sugerido pelo próprio. ainda assim, não maldigo a vida. o sol, ameno, beija-me a pele. o chá aquece-me a alma. quanto ao homem, ainda não sei o que fazer.
acordaram-me pelas cinco da manhã, tudo escuro, apenas as luzes do casario, na encosta. queriam sair. calcei as botas, umas calças velhas, o casaco azul, e fui com elas. 
ainda com a lanterna apagada, quedo-me no cimo da ladeira, encantada com o céu estrelado, enquanto as aves nocturnas e os grilos executam o concerto da noite. guardo o momento, precioso, e avanço por entre os arbustos, lanterna em riste, procurando os dois pares de olhos apressados.

cansadas e satisfeitas, ouço-as agora roncar. a mim, sobra-me a caneca de café com leite, a piscina do submarino e um livro disposto a navegar comigo.


bom domingo.


/ouço os primeiros tiros do outono. que raiva me (re)nasce./

1.10.16

contou-me a raposa, enquanto eu praticava mariposa na piscina do submarino, que, no mundo de onde vinha, a música era sempre servida à hora das refeições. alimente corpo e alma, podia ler-se nas portas de todos os estabelecimentos. no final, as pessoas abraçavam-se dizendo, que a música esteja contigo.

-- e dançavam?

-- sim. com os olhos postos nos seus amados.

28.9.16

eu e a pandilha de criaturas extraterrestres que habita o submarino, escutando a história da raposa.


blue bath, LUK

-- Carga d'ossos como está, menina, sem gel nas unhas, peito que dê gula, nem o cabelinho pintado como deve ser, vale poucochinho... Não leve a mal, menina, mas agora querem-se outra vez as mulheres bastas, do pluz size em diante, as das fotografias a três quartos e boquinhas cu de galinha.

27.9.16

quanto valho eu, inteira?
meu amor, o inferno é o meu corpo foda a foda alcançado.
cabeças cheias de raiva e murmúrios no escuro:

25.9.16

das coisas que sabemos, sentido-as cravar os dentes na maciez da polpa do coração, tenazes revolvendo os órgãos internos, agudos afilados fustigando-nos a alma - mas decidimos não falar, nasce a dúvida. simples e fatal.
{sussurrar baixinho}

chega-me o leitor conhecedor, da vida e da gramática, das coisas como elas são, e pede-me que tome note, altere, corrija, evite, o pleonasmo acima destacado. 
pois com certeza que sim, afirmativo e correcto, palmadinhas no recto, beijinhos múltiplos e variados, adeus e ficar bem.
Violeta, hoje mais violeta do que o costume - culpa da fotografia, garanto -, continua bem e de boa saúde, coroada de seis belíssimas flores, tal como no longínquo mês de Julho, data em que foi resgatada da superfície comercial onde era mantida em cativeiro.

manda beijos e abraços.
/e faz figas contra o mau-olhado, que isto de exibir a beleza na net, já se sabe... nascem as invejas daninhas./


Violeta, acabada de acordar


/começo a achar que é de plástico.../

24.9.16

desço o caminho que conheço de cor e olhos fechados. Taeko e Yukiko acompanham-me. o cheiro intenso dos figos maduros assegura-me que estou perto do rio. aos poucos, toda a cidade fica para trás.
o corpo inteiro cobre a alvura do meu. sinto-lhe o sexo, ainda duro, molhar-me a barriga latejante.
-- eu não existo, alicinha, - diz-me ao ouvido, enquanto me morde o lóbulo, vermelho, da excitação.
a custo, o corpo ainda no galope de um espasmo profundo, consigo sussurrar-lhe baixinho: -- eu também não.
espreito o clarão amarelo que rompe a custo, por entre o nevoeiro.
talvez o café me traga a temperatura anunciada na aplicação, mas hoje, parece-me, já me chove por dentro.

23.9.16

paz à alma de Vendredi, cujo corpo apodrece no balanço suave das águas baixas da ribeira.


era desta forma, tranquilamente, zombando a putrefacção da pobre, que gostaria de ter iniciado o presente relato. mas não posso. não devo. Vendredi merece um final épico, talvez caída no poço de um elevador, no bairro do pica-pau, ou trucidada por um comboio da linha do cacém. ou, porque não, atacada pela navalha de algum agarrado, quando lhe resiste ao assalto à luz do dia. tudo se há-de passar na musgueira. 
ou talvez Vendredi mereça uma morte mais nobre, coisa para um palacete em sintra, às mãos de um velho conde em ruina, quiçá, envenenada pela cozinheira ciumenta, nada e criada em Malveira da Serra, há sessenta e um anos. ou por um dos filhos bastardos do velho.
ou talvez nada e de Vendredi nem mais uma palavra.

22.9.16

o que me irrita no rapaz de cabelos longos, maquilhagem, barba e sapatos de salto altos, o corpo bamboleando-se como se fosse uma top-model dos anos noventa, não é a diferença, muito pelo contrário. o que me irrita superlativamente é o cliché do pressuposto feminino.

21.9.16

parei na autoestrada,
percorri metade da ponte,
cerca 80 metros de altura,
/sei-os, porque os li não faz muito tempo
e tenho tanto medo daquela ponte./

tentei,
não consegui salvar o gato,
que ainda mia na minha cabeça.

entre a idiota de colete reflector e a cobarde que aqui vos tecla,
há um par de braços vazios.

20.9.16

presente simples




/roubado aqui: maquina de escrever/
quando há pouco saí do carro, os sapatos tão bonitos e tão altos, o fato azul marinho, percebi que da multa já não me safava. viesse eu com as botas da terra e as calças gastas, com que esta manhã corri atrás de dois jovens javalis - verdade -, e talvez o sr. agente encolhesse os ombros e me mandasse à minha vida.

 a quem trabalha, não basta ser, é melhor não parecer.

18.9.16

andariam os dois pela casa dos trinta e caminhavam à minha frente, em direcção ao estacionamento. ela, franzina, empurrando a custo um carrinho repleto de artigos pesados, que lhe fugia de viés; ele, distando de alguns metros, apenas com um saco na mão.
talvez isto seja também a igualdade, pensei.
sim, há um gozo especial, uma espécie de poder, um controlo qualquer, ou simplesmente tolice minha, em caminhar descalça nos azulejos gelados, ainda de madrugada, e voltar à cama, logo depois.
a vida é um teatro.

17.9.16

fecho os olhos e entrego-te o meu corpo, líquido, ouro negro, antigo, um grito rouco no centro da clareira, ventre prenhe dos sonhos de menina.
à minha mãe, que me trouxe ao mundo fora de prazo, abrigando-me nas suas asas imensas, e nos ensinou a brincar.
a mulher mais bela que conheço.
 


14.9.16

a paciência in-
sonora do meu desespero.


/a morte é uma flor/

Mukyo Samuzora

12.9.16

caminho sobre o desfiladeiro mais alto, através de uma corda demasiado fina. tenho medo como nunca tive. 
mas não será assim com toda a gente?