27.11.16

Lee Jin Ju

tive direito a quase tudo, a luz lilás do entardecer, taeko e yukiko escavando debaixo da figueira, misturando o cheiro da terra escura ao doce putrificado das maçãs, cogumelos mansos nascendo entre o verde da erva;  perto, uma motosserra abrindo a madeira, os gansos do outro lado do vale, a silhueta a tinta da china de mokambo, pousado na árvore morta onde descobri o rosto de herberto, pássaros que não conheço trinando perto de mim; alto, um avião em direção às nuvens cor de pêssego.
ironia das ironias, a mais fina e requintada profissional de lupanar, continuo na segunda-feira e logo à noite será  domingo...
não fosse eu esquecer-me de que hoje é segunda-feira, logo pelas seis da manhã, a mãe deusa das regras fulminou-me a zona dos rins com vários arpões em aço inoxidável, enquanto me arrebanhava as tripas, apertando-as em remoinho. arrastei-me à casa de banho e ali mesmo, deitada no tapete vermelho, olhando fixamente o velho candeeiro redondo, forcei a cura. quinze minutos depois, levantei-me a sorrir.
ultrapassados vários ciclistas e papa-reformas a caminho sabe-se lá do quê, pé no acelerador na estrada larga, eis-me numa pastelaria com nome francês: pain au chocolat et café au lait, s'il vous plaît, merci. perto, uma turba oriental em volta da senhora das raspadinhas. contam o dinheiro com um sorriso que lhes desconhecia. possivelmente tão sincero quanto o meu, quando já me besuntava no pequeno brownie de chocolate com nozes pecã (senhores!!!).
caminho finalmente para o destino. à minha espera, um bigode, sorridente, que me lembrou dos que deixei em casa - se me despachar, penso, ainda consigo a tarde de domingo!

26.11.16

bolachas de chocolate que fazem parelha com cerveja verde, podiam ditar-me grávida, não estivesse menstruada, marcando mais um mês no calendário. calças de ganga e botas das obras, como gosto de chamar às amarelinhas, podiam passear comigo na rua, quem sabe ir até aos jardins da Gulbenkian, guarda-chuva preto dos corações, em vez disso, amarram-me a esta velha e magra cadeira, onde outras palavras esperam para serem escritas, enquanto os meus olhos imploram a ilusão.
tão bom, quando o mundo dentro da minha casca de noz me traz coisas assim. e logo a mim, que ainda guardo as memórias da biblioteca, trabalhando os jesuítas, e de Urbano no conserto do mundo.

do cinema, pela mão de Scorsese, chega o trailer de Silence, adaptado do livro de Shusaku Endo. do livro, disse Urbano: "Fica-se quase doente ao ler Silêncio, mas rendemos-nos à verdade e força dos estados de alma e das confissões das personagens. As descrições da natureza são magníficas: as estações do ano, as árvores, as cigarras, o concerto dos pequenos animais da floresta." (daqui)

25.11.16

até quando encontrar
seus fios de cabelo
no meio dos meus livros?



*

agora
imagine
uma
caixa
torácica
de
bom
tamanho
acústica
saudável
onde
pulsasse

bem-
acondicionado

do
lado
esquerdo
do
peito

um
baço. 

           
*

                    
outro dia mesmo, vadiando as gavetas,
topei com uma de suas costelas.


o que um dia foi pra mim
lua crescente, pente,
bumerangue de marfim


(e – ainda – quantas vezes
arco para violinos genoveses?),


hoje é apenas um souvenir
de timbuktu.


                         
*

talvez depois sorrissem, se um deles
perguntasse, patético, aturdido,
na noite exumada:

o único osso
que restou de nosso
amor decomposto


é a lua,
essa mesma lua 
linda lá no alto?


                   
*

                              
(não que fosse aquela nudez
o primeiro alumbramento.)

você lembra?

ali parados, o coração batendo,
surrados
por uma corja de borboletas.


         
*

     
não é o tempo, necessariamente.
não é da alçada dos relógios.
o vento
                               
é que comove as árvores, despenteia
o móbile das lembranças.


rodrigo madeira
oriundo do pequeno país do continente e famoso contador de estórias,  júlio - e o seu bestiário mágico - tem viajado comigo, nestes que têm sido os tempos das descobertas azul profundo do mar. Alyyah, ora peixe, ora pássaro, é massa espessa que me navega as veias e à noite se deita ao meu lado. tal como o rei que reinava sem nunca ter visto o mundo, também eu me atrevi a abandonar o palácio e a procurar o meu deserto. júlio diz-me que todos temos um tempo à nossa espera, enquanto improvisa algumas notas no velho trompete.  se algum dia encontrares o rei de quem fala Tagik, o berbere, repete-me, quero apenas que lhe ofereças estas palavras:

Allá al fondo está la muerte, pero no tenga miedo. Sujete el reloj con una mano, tome con dos dedos la llave de la cuerda, remóntela suavemente. Ahora se abre otro plazo, los árboles despliegan sus hojas, las barcas corren regatas, el tiempo como un abanico se va llenando de sí mismo y de él brotan el aire, las brisas de la tierra, la sombra de una mujer, el perfume del pan.


/Instrucciones para dar cuerda al reloj: traduzido aqui/

23.11.16


Adara Sánchez Anguiano

abocanhou-a pelo cachaço, até sentir um frémito de calor nos testículos.

20.11.16

...

"Às vezes estou tão excitada que basta tocarem-me nas mãos, apertar-mas com força, e tenho um orgasmo quase instantâneo!"
"A sério? Só de te apertar as mãos?"
"Estavas desatento!"
Fez-se um silêncio risonho.
"De facto, da forma como falas com o corpo, não pode ser surpresa!"
Corando e apontando o olhar para o chão, respondeu com o tom de uma menina pequena:
"Não dá mesmo para enganar, pois não?"
"Falas como se isso fosse mau..."
"É que assim sinto-me sempre nua!"
"Só os semelhantes se reconhecem entre si."

...


/a mulher dos aforismos - enfermaria 6/
Há pessoas que conseguem morrer em órbita e outras que se esmagam no fim da queda. E outras (às quais pertenço) conservam sempre em si como que uma tímida nostalgia da dança em roda perdida, porque somos todos habitantes de um universo em que todas as coisas giram em círculo.

/O Livro do Riso e do Esquecimento/
há baleias voadoras urinando chuva miudinha, por estes lados. já não sorrio à sua passagem, pois sei que em breve chegará mais uma leva de caracóis e lesmas gigantes e a minha agonia nunca terá fim.
Sr. Gato convalesce na despensa aquecida, com ala própria, preparada para o efeito: wc privativo e cozinha equipada com tigelas de água e comida. não havendo ainda resultados das análises, é dar mimo, comida e calor. no deita levanta que foi a noite, Taeko e Yukiko, ursas ciumentas, passaram de minhas sombras a carraças das minhas pernas. culpa minha, que trago as bichas mais mimadas que bloggers famosas em dias de inaugurações. milu, a minha querida milu, que ainda ontem - em versão gigante - enxotei com a vassoura, aguarda por mim no canto do costume, no tecto do submarino. assim sendo, resta-me ir buscar a caneca do café, quem sabe fazer umas torradinhas - que o pão está duro e preciso de desenjoar das papas - e submergir-me no dia santo, que se avizinha curto. se a edp não me falhar e o Sr. Gato melhorar mais um bocadinho, diria que será um bom domingo.
/atlas/

A unos trescientos o cuatrocientos metros de la Pirámide me incliné, tomé un puñado de arena, lo dejé caer silenciosamente un poco más lejos y dije en voz baja: Estoy modificando el Sahara. El hecho era mínimo, pero las no ingeniosas palabras eran exactas y pensé que había sido necesaria toda mi vida para que yo pudiera decirlas.

Jorge Luis Borges

19.11.16

talvez noutra vida o acaso troque os papéis da cena e me calhe a mim ser o rato silvestre |são tão fofinhos|, Ramirez, o espanhol, fará de flor coração de margarina, a caridosa, e ao roedor caberá, finalmente, o papel de gato sádico e psicopata.
Rosácea



Rosácea, a roseira anã, presenteia-me com um pequeno botão, no dia em que - espero - Sr. Gato, o velhinho, regressará a casa, para viver mais um par de anos comigo. espero, mas receio. 

18.11.16

no seu voo atarracado, Mokambo, o mocho-galego, alcançou o pilar de madeira, enquanto eu observava Marlon Brando, escondido no meio de um tufo de erva verde-belo. Taeko encontrava-se a pouco mais de dez metros, mas deixou-se ficar deitada. suspiro de alívio, de tigela nas mãos - dieta de papas com cheiro a maçã, em busca dos quilos perdidos -, e pondero o banho no submarino. talvez - finalmente - tenha aprendido que os felinos são senhorios destas terras, de igual modo como suas majestades, as duas gordas. Mokambo, por quem me apaixonei faz tanto tempo, abre-me ainda mais os olhos |como são bonitos| e deixa-se ficar no seu poiso. felizmente, para bicho de estimação, não me exige (ainda) tigela cheia, nem manta polar.
o vale, vestido de outono, enche-me a vista. perto, uma vizinha, em posição de lótus, procura o seu nirvana. estranhamente, de olhos fechados. 

17.11.16





sei que fiquei presa num canto da sala, invisível.

15.11.16

morrendo, numa prateleira de qualidade ikea

13.11.16

a maior dúvida era saber se a placa - da belíssima cozinha que é a minha - ainda funcionava. trouxe a pasta fresca de uma loja/restaurante perto de entrecampos, cortei dois portobellos para dentro da frigideira, reguei com vinagre balsâmico e pouco mais. há uma garrafa de vinho tinto à espera do saca-rolhas.
ah, senhor... para quando um outro domingo assim?

o maior luxo dos últimos meses, foi este domingo de sol que roubei na agenda azul dos afazeres urgentes. para terminar esta doçura de dia, outono cor de mel e de vinho, veio a lua, prenhe de luz, fazer-me companhia na varanda. eu, envolta no casaco de lã, sorvendo o chá de tília, ela somente vestida de prata.

12.11.16

quão difícil é a nudez, quando um papel regurgitado pelo preço de cinquenta cêntimos nos mostra um número que nos magoa. sou uma magra triste. pouco mais do que uma pequena carcaça.

Davide Padovan

I'm ready, my Lord




É esta condenação, lava ardente, suco, sémen, semente, esta inconstância só minha. Sonho uma morte violenta, a quente, bala na têmpora, carro despistado, cara desfeita, em contra-mão. Sonho com o vidro que me há-de perfurar a pele macia, quente, fêmea pronta em cio, cadela em ladeira esquecida, macho alfa de alcateia, sonho-me liberta de mim.

|repetem-se, em elipse|

11.11.16

dois anos de cultivo.

Nicholas Alan Cope

ninguém é impossível: suicidas por felicidade, assassinos por benevolência, pessoas que se adoram ao ponto de se separarem para sempre, denunciantes por fervor ou por humildade… Essa liberdade completa acaba por equivaler à completa desordem.

Jorge Luis Borges in Prologo, A Invenção de Morel 

10.11.16

fui roubá-lo ao Bitaites. (obrigada, Marco!)

magnífico...

9.11.16

já não me recordava de como um par de sapatos de salto alto e um bom vestido faziam tanta diferença em mim. não fosse a cara de quem dormiu pouco mais de cinco horas...

6.11.16

Reparaste como o Outono este ano veio por outro lado,
como se fosse pelo lado de dentro?


perguntou-me, quando o encontrei na wook, onde lhe fizeram aparato, e não resisti a pedir-lhe um abraço. amo o Pina desde garota, era um pai que gostava de ter.
não sei se mo disse, se o imaginei na altura, A poesia vai acabar, os poetas vão ser colocados em lugares mais úteis. Por exemplo, observadores de pássaros (enquanto os pássaros não acabarem). e eu, aflita, Que não, Poeta, que não! A poesia é o pássaro que canta, que canta onde lhe apeteça.

aguardava na fila no multibanco, onde uma senhora de cabelo lilás verificava todas as suas contas, e possivelmente as do seu agregado familiar inteiro, introduzindo e retirando vários cartões, guardando os extractos. perto, uma mãe ajudava o seu rebento pequeno a subir para o cavalinho, apenas com uma mão. na outra, já pronto a filmar, o smartphone. segura-te, pá! ainda deixo cair o telefone! o miúdo choraminga, mas lá se empina no dorso da maquineta. vá, agora sorri! sorri para aqui, Martim! 'tou a filmar! a música começa e o Martim sorri.
e se eu morrer de medo?, pergunta-lhe ela, de olhos arregalados. morres nada, minha gatinha, eu vou contigo, é a resposta pronta que chega do rapaz, enquanto a aninha junto ao peito e lhe dá um beijo na testa. ela sorri.

/e eu sorrio também, mas para dentro, fingindo nada ter ouvido. ah, fosse tudo tão belo como estar ancorada num par de braços. miau... /

5.11.16

“Como não tive filhos, o que de mais importante me aconteceu na vida foram os meus mortos, e com isto refiro-me à morte dos meus entes queridos.”

Rosa Montero, A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te





|fico aqui, sentada nesta puta desta cadeira, dura e feia, relendo as palavras que nunca escrevi, mas sinto como minhas. às vezes, acontece-nos assim.|

{sonhos de abóbora para o Manel}

na brincadeira, sem revelar a fonte da ideia, pergunto à Lucinha se já tem sonhos à venda. parece que não, sonhos, diz a Lucinha, ao contrário das decorações natalícias, só em dezembro. portanto, Manel Pero Vaz de Caminha, escrivão-mor do galeão Cuca Melissa Pamela, nada feito, mais vale comeres as farófias.

as duas mulheres do salão que frequento de quinze em quinze dias não se dão. a agressividade com que se tratam, coberta de sorrisos de ácido sulfúrico, mantém as clientes em alerta permanente, não podendo as dos cabelos trocar novidades com as da manicure e vice-versa. as conversas, esse elemento valioso dos negócios de salão, são tão curtas por aquelas bandas, que bastas vezes se consegue ouvir o ponteiro dos segundos numa volta completa. podia ser desagradável - e será, para quem espera pela ocasião para limpar a alma, que traz cinzenta de casa -, mas para mim, aquele silêncio de arame farpado vale ouro.

3.11.16

ah, a beleza da perspectiva...

1.11.16

rezei pelos meus mortos no velho pomar, trincando uma maçã amarela. no final, atirei o caroço à terra e guardei novamente as memórias.
quase sinto pena e tenho vontade de lhe dizer, o problema não é a tua opinião, tens tanto direito a ela, como os outros à sua. o problema reside no palanque em que te colocas para evangelizar o mundo com as tuas certezas. porque insistes tu, sempre, em querer ganhar a taça da gaja mais inteligente e despachada? que anjo te soprou ao ouvido que tu eras a escolhida? que homem te tão humilhou para que julgues agora que tens de ser o centro de cada universo por onde passas?

mas depois observo-lhe melhor a petulância com que disfarça o medo de ficar sozinha e a teimosia de quem se esconde nas frases que decora das muitas folhas que apregoa ler - estranhamente, a maioria delas figura sempre nas lombadas, sinopses e artigos da especialidade -, e nada digo. sinceramente, não vale a pena.

das várias razões existentes para engordar, a que me ocorreu esta manhã, deitada no submarino, é a de como, faltando a carne, fico sem almofada para o osso sacro. é incómodo, tendencialmente doloroso, e, já tendo sido eu, em tempos juvenis, dona de um traseiro de referência, nada disto faz sentido. ocorreu-me a constatação, enquanto admirava as decorações alusivas ao dia, que milu, com a ajuda preciosa da dona da bata às riscas, me deixou, do candeeiro ao tecto.
quando as noites me magoam, rosno-lhes, incapaz de mais. as noites, brutas, julgando-se donas de mim, atacam-me impiedosamente os flancos destapados. eu riposto com gritos metálicos, mas logo que posso, tento o refúgio na rigidez dos dentes cerrados, esperando que o silêncio me livre das agressões. quando os deuses são generosos, o sono pega-me ao colo e leva-me para o outro mundo.
estas são as noites com sabor ao lodo do fundo de um poço. o castelo desmoronado.