30.4.17

dando seguimento à corrente artística iniciada por Palmy Rego e Mirocassa.


chama-se a esta nova corrente, o imperfeccionismo...


estamos as três junto da janela grande do escritório. taeko marfando no pote - gulosa como só ela -, yukiko de vigia, perscrutando o verde do vale, em busca de algum movimento, e eu, confesso que surpreendida pela sintonia da chuva obliqua que teima, com a minha disposição. talvez o café me limpe o amargo da boca. engolir a verdade, quando não estamos sequer dispostos a ouvi-la, é coisa para nos roubar muito mais do que o sol de domingo. felizmente, o gato mia, berra-me que lhe acuda com comida. tudo o resto pode esperar.

29.4.17

A solidão é uma doença de pele

[...]

Tornamo-nos impermeáveis na solidão:
dentro da pele não viaja ninguém;
fora da pele ninguém nos vê passar.


Jesús Jiménez Domínguez
daqui
lembrei-me de Vendredi, a sonsa, e daquela vez em que a música se lhe aninhou no sexo, as ancas sedentas, e a moça dançou, - sua excelência, o sr. embaixador presente na mesma sala -, dançou como quem faz amor, de olhos fechados.



É amargo o coração do poema.
A mão esquerda em cima desencadeia uma estrela,
em baixo a outra mão
mexe num charco branco. Feridas que abrem,
reabrem, cose-as a noite, recose-as
com linha incandescente. Amargo. O sangue nunca pára
de mão a mão salgada, entre os olhos,
nos alvéolos da boca.
O sangue que se move nas vozes magnificando
o escuro atrás das coisas,
os halos nas imagens de limalha, os espaços ásperos
que escreves
entre os meteoros. Cose-te: brilhas
nas cicatrizes. Só essa mão que mexes
ao alto e a outra mão que brancamente
trabalha
nas superfícies centrífugas. Amargo, amargo. Em sangue e exercício
de elegância bárbara. Até que sentado ao meio
negro da obra morras
de luz compacta.
Numa radiação de hélio rebentes pela sombria
violência
dos núcleos loucos da alma.



/in Ofício Cantante/

28.4.17

Gotthard Schuh, Sunday Afternoon, Lake Maggiore, Italy, 1961

27.4.17

e agora? pensas, quando, por deslize, baixas a guarda de ti própria. escondes-te num canto só teu e esperas que as lágrimas te escoem a alma. mas nem isso consegues. ficas sozinha no escuro, os olhos ardendo de sono, o peito no aperto de sempre, e repetes em silêncio, e agora?
Egon Schiele, The Kiss, 1911

25.4.17

o gato amarelo acorda e boceja rente ao meu olhar, para que lhe sinta o cheiro a peixe de lata e o desdém de quem há muito observa a humanidade canina. no livro de poemas, que jaz sobre as pernas nuas da mulher, há um gato assim.
desconheço as regras de etiqueta, no que a orquídeas diz respeito, mas acredito que os puristas da coisa não irão gostar da minha Violeta actual. pensem nela como uma flor que engordou, uma flor de verdade.

para ti, Palmier Maria, patrôínha do meu coração.




(de costas :)


24.4.17

taeko, a flor canina



23.4.17

era um homenzinho horrendo, atarraxado dentro das camisas suadas, que se lhe abriam na curva balofa do umbigo. tinha um pequeno minimercado, perto da zona dos comboios, onde a mulher, mirrada dentro da bata, passava os dias presa à caixa registadora, e alugava quartos a raparigas na parte velha da cidade. o apartamento, um quinto esquerdo, cinzento sujo do tempo e da falta de quem o esfregasse, era o seu harém. armado do molho de cópias de cada chave, depois de estudados os horários, deleitava-se a entrar em cada quarto, procurando segredos e roupa interior, que acariciava com a fome de vários anos sem tocar numa mulher. quando tinha a sorte de encontrar algumas cuecas usadas, cheirava-as o mais que podia, em delírio, e lambia-lhes o sumo ressequido, enquanto se masturbava com cuidado para um lenço de papel, que trazia sempre no bolso. 
nunca trocava a botija do gás, que levava do minimercado, antes de terceira reclamação. costumava dar grandes sermões sobre os desperdícios e gostava de lembrar às raparigas que a casa devia estar asseada. a ironia sempre foi puta fina, já que o sr. Silva preferia esfregar o caralhito de merda, como mais tarde se lhe referiu uma das raparigas, nas cuecas mais sujas que encontrava.
com uma aspereza de que não gostei, perguntou-me como conseguia eu ser tão fria, não ter gosto pelas coisas, não me interessar por nada. quis explicar-lhe que não comungo do materialismo, mas a voz ficou-me presa nos subterrâneos da alma.
Under the water we can't breathe, we can't breathe
Under the water we die
Under the water there is no one watching
Under the water we are alone

Then why do we jump in?
Why do we jump in?




«Espera, deixa-me ver-te devagar. Dás uns passos, bates uma palmada no chão e sobes alto e lá no ar dás uma volta sobre ti, mas antes de caíres de pé, imóvel, fico a ver-te parada no ar. Corpo elástico, esguio, fico a ver-te. Flutuas imponderável, a Terra não tem razão sobre ti. Vejo-te no espaço, todo o corpo elástico numa curva dos pés até ao extremo das mãos, ou talvez não, recomeça o salto para ver melhor. Talvez o corpo não em prancha ao alto mas enrolado sobre si e giras no ar em rodízio até te desenrolares e caíres depois em pé firme. Queria dizer-te como isso me maravilhou, o teu corpo poderoso, desprendido das coisas, liberto da sua condição bruta, feito de um esplendor imaterial. Terei dito bem? Imaterial. Quanta coisa havia nele, os teus ossos, as tuas vísceras, mas tudo existia leve e eu só lhe via a sua forma perfeita de voo. Há uma órbita da exactidão como se diz dos astros e tu seguia-la, um rigor matemático com que o universo existe.»

/em nome da terra/
Ellen Auerbach, Robert Mann Gallery

22.4.17

deixei o espaço onde homens - e escassas mulheres - mediam o tamanho do ego pelo valor do símbolo e rumei à livraria*. no terreiro, dois miúdos faziam corridas velozes nas suas bicicletas com rodinhas, rindo à gargalhada. 


/*saudades, tantas, dos meus alfarrabistas e do silêncio da procura. nas livrarias, mulheres iguais, urbanas, cultas**, irritantes, falam alto, sem pudor, dos livros dos escaparates e de alguns dos seus autores***, com uma arrogância-ignorância que me dá vontade de as mandar calar. não saberão que ali, no meio dos livros, estamos em permanente oração?/


/**aquele tipo de mulher que faz do vestuário aborrecido, sapatos ortopédicos, cabelos nunca pintados ou arranjados  - nem olhos, lábios ou unhas -, o seu manifesto à primazia intelectual***./



/***diz uma delas: Ando há tanto tempo para ler este escritor, mas depois compro sempre outros livros, não sei porquê. Já leram? Tem aqui tantos livros. --- este escritor era Saramago...  --- não são mais cultas, alguém que lho diga com jeito, são apenas mais sem graça./


a senhora da bata às riscas diz-me que a banheira, meu pouso divino, lhe faz lembrar um caixão. deus a livre de tomar banho deitada! sorrio-lhe e asseguro-lhe que aquilo é do melhor que há. vira costas, de vassoura na mão, dizendo que nem pensar.
o formato será o de um caixão, não nego a evidência, mas aquele retângulo branco sempre se me assemelhou à barriga de uma boa mãe; outras vezes, o submarino onde navego. faltando-me no tecto a saudosa Milu, opto agora por me concentrar nos veios do mármore em frente, procurando novas geografias cartografadas, mundos onde as vontades possuam existência.
ouço o aspirador e lembro-me de que tenho de ir. também para mim hoje é dia de jorna.

17.4.17

«Os meus pés já não se deslocavam. A caverna já não era uma estrada sem fim a abrir-se na minha frente. Era um berço de madeira, forrado de peles, a baloiçar. Quando deixei de dar passadas firmes, de contar os passos, quando deixei de apalpar os muros à minha volta com dedos torcidos como raízes, de procurar alimento, o passeio labiríntico alargou-se, o silêncio tornou-se aéreo, as peles desintegraram-se, e entrei numa cidade branca.» 


Anais Nin, Debaixo de uma Redoma

16.4.17

«Caminhava presa com um alfinete a uma teia de aranha de fantasias fiadas durante a noite, obstinadamente seguidas durante o dia. Essa teia de aranha foi rompida por uma buzina do nevoeiro e pelo carrilhão das horas. Dei comigo a atravessar pontes levadiças, fossos, pranchas, se bem que ainda presa ao cabo pesado de um navio pronto a largar. Estava suspensa entre a terra e o mar, entre a terra e os planetas. A atravessá-los à pressa, angustiada por causa da sombra que ficava atrás, a marca dos passos, o eco. Todas as cordas facilmente desatadas, mas uma a prender-me àquilo que amava.

Mergulhei num labirinto de silêncio. Os meus pés cobertos de peles, a minha mão coberta de ouro, as minhas pernas embrulhadas em algodão plissado, atadas com chicotes de seda. Pele de rena no meu peito. Sem voz. Sabia que, tal como a rena, se nesse momento me enterrassem a faca, nem sequer suspirava.

Fragmentos dos sonhos explodiam aquando da minha passagem, através dos fossos, caíam como pedaços de planetas mortos, sem romperem as peles e o algodão desse silêncio. Os muros de carne e de pele respiravam e gotas de sangue branco tombavam com o som das pulsações.

Não queria avançar no silêncio, sentindo que podia perder para sempre a voz.»


Anais Nin, Debaixo de uma Redoma

14.4.17

se as palavras tivessem facas e me cortassem os lábios, a língua, as mãos, ao tentar segurá-las na boca,
e se as facas, afiadas, ao dilacerar a carne, escondessem a dor dentro das palavras,
então eu escreveria

13.4.17

é nela que penso, quando me sento na esplanada frente aos baixios com cheiro a mar e peço uma meia de leite e uma sandes de queijo e manteiga, ouvindo homens que falam de lebres e no tipo de cartuxos, namorados que partilham telemóveis e copos de água, mulheres gordas em licras justas fumando marlboros, gente que fala alto demais. na bebida.
quando me viu, envergonhou-se. ofereceu-me um sorriso de pirata cansado. na mão direita, o copo largo, dourado; na outra, a garrafa. pouco passava das dez, trazia nos olhos a noite longa de uma semana cheia de gente na rua. tivesse tido a coragem de trocar a oferta do café pela bebida e eu tê-la-ia aceitado.
conheço bem esta raiva que todo o dia se me aninhou no corpo bravio -- a comiseração muda de quem fica sozinha. juntas na cama, há-de reduzir-me ao vazio estreito de uma almofada, antes que a madrugada a recolha de mim.

9.4.17

quando fosse grande havia de ir aos temporais.


Aëla Labbé

Miguel Ángel Buonarroti duerme plácidamente. No, no está descansando; está creando. Por eso, al despertar, toma sus herramientas, se para frente al bloque de mármol y comienza a eliminar los pedazos de realidad que le sobran a su sueño.

Rafael García Z., El mago natural y otros abracadabras


eu sou o contrário de Buonarroti. mal me levanto e já todas as réstias de sonho - se as houve - se foram.

8.4.17

vi-o descer, sete palmos abaixo da terra, no dia em que não chorei. hoje, enquanto comia as folhas de alface, tão tristes, senti-lhe o riso de escárnio junto à orelha. agora paga-se para comer erva?, perguntou-me meu pai morto.

que queres que te diga, se não sei olhar a vida de outra maneira? falta-me a doçura de quem sonha com o amanhã. um navio encalhado no rio nunca trará os peixes do mar.

5.4.17


Aëla Labbé

2.4.17

dona Miquelina, tome nota, leitor, assim se chama uma das minhas vizinhas, velhinha amorosa a quem só falta a espingarda ao ombro. pois dona Miquelina abomina essa moda que agora prolifera de cavalgar montes e serras em cima das bicicletas. que lhe estragam o mantimento todo!, vocifera, cuspindo chispas. a rapaziada da câmara bem tentou, até a guarda lhe bateu à porta, mas dona Miquelina, sadia de tino e rija de língua, pô-los todos a correr - outra raça excomungada que também apoquenta as terras de dona Miquelina. fechadas as fronteiras, nada mais resta aos moços dos calções de licra, que ainda por ali tentam a sua sorte, senão voltar para trás. alguns excomungam a velha, outros ficam parados alguns minutos a tentar perceber o muro erguido. eu, cá de cima, nem sei bem o que pensar. não lhe comiam o carreiro de terra batida, bem de certo que não, mas é vê-los pisar as leiras plantadas, como quem pisa capim, e logo me dá vontade, a mim também, de ir procurar a pressão d'ar.
para a luisa, que gentilmente me recordou da bicharada que arrepia.

/mil vezes, meia dúzia de Milus, grandes e pretas, a treparem-me pelas pernas/
chegou o tempo das aflições. eu olho, escancaro mais a vista e olho de novo, cerro as pálpebras e olho outra vez, perscruto,  impaciente, a erva alta e não as vejo. desaparecidas no oceano de verde, resta-me aguardar pelo movimento excitado das antenas caudais, resultado de alguma toupeira em maus lençóis...
o meu sossego nasce daquela crueldade.



lembra-se o* caríssimo leitor da dúvida que se me assomou no tempo da plantação?

diabos me levem - com carinho e ternura, que ando tão definhada - se eu não tenho sangue de lavradores a correr-me neste corpo estupidamente citadino e ocioso!
alhos!! tal como previ, antevi, suspeitei, desconfiei e me cheirou:  alhos! essas stinking roses às portas do meu quintal. dizem que é plantação que dá dinheiro... quem sabe se não treino a colónia de toupeiras para a apanha.


/tome-se o* por indefinido plural. sonhe-se a multidão, filas duplas de ávidos leitores, fieis como pequenos póneis/